sábado, 5 de agosto de 2017

DORAMUNDO Geraldo Ferraz

Melhoramentos, São Paulo, 1975 (primeira edição em 1967), 203 páginas.

Amei ter assistido Doramundo de João Batista de Andrade.


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Eu, segundo ano de ciências sociais em 1978, recém-saída da casa dos pais tinha disposição infinita para ir ao cinema e preencher as noites solitárias e fins de semana vazios. Pelo menos é essa a lembrança que tenho, também preenchida por festas, beberagens diárias, intensa discussão política, algumas viagens reais e imaginárias, além, é claro, do trabalho burocrático das 8 às 18 que, afinal, era meu sustento.

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Enfim, essa era uma época em que eu estava descobrindo que a minha independência não era tão independente e a liberdade nem um pouco irrestrita. E foi nesse espírito que assisti ao filme de João Batista de Andrade, Doramundo. A cena em que um boi era morto a marretadas ainda martela na memória, assim como os assassinatos dos jovens trabalhadores na estrada de ferro, ambientada em Paranapiacaba misteriosa em meio à cerração permanente de suas tardes, noites e madrugadas, bucólica na imagem de suas casinhas de madeira, a estação de ferro com cara e jeito de inglesa e ladeiras forradas de paralelepípedo escorregadio pela constante umidade.

Há tempos queria ler o livro que deu origem ao filme.


Os assassinatos pareciam ocorrer sem razão aparente. 


O ponto comum entre as vítimas é que eram homens solteiros e trabalhadores na ferrovia, sempre mortos com um violento baque de uma barra de ferro em suas cabeças. A investigação policial não tardou a descobrir o motivo que já era amplamente conhecido da pequena população local: crime passional, ciúmes, traição. Os homens solteiros preenchiam suas horas vagas e necessidades com as mulheres casadas moradoras da pequena vila de trabalhadores da ferrovia.

Geraldo Ferraz, autor de Doramundo, não faz um relato linear dos acontecimentos. As vozes se alternam, os narradores se sucedem, um acontecimento ou uma conversa tida antes se encaixa com algo que vai ocorrer mais adiante. 


E é Adolfo Casais em seu prefácio ao livro quem esclarece que "'a ordem' dos acontecimentos só interessa secundariamente ao desenvolvimento do livro; eles importam mais como acumulação de carga emotiva do que como fatos de que a história dependa. Esta é, assim, um todo, não uma série de cenas, mas uma situação da qual importa ao autor fazer-nos sentir o impacto, e não o 'como' de cada sucesso. Pelo contrário, os acontecimentos só existem em função da relação de forças, do choque de impulsos, são como que meras ilustrações."




E é novamente Adolfo Casais Monteiro quem nos dá a chave do romance:

"Doramundo é um romance de forças primitivas, em que os personagens reais são de fato o sexo, a noite, o medo, a treva, um ciúme sem amor, o que, só por si, envolve todo o livro num clima de fatalidade cega, bem de acordo com as paixões primitivas em jogo."


É como se a névoa que encobre a cidade fosse incorporada pelo escritor, transformando em sinistro o povoado, não nos deixando identificar claramente as vítimas e muito menos o algoz. Será apenas um o algoz ou serão tantos quantos as vítimas?

Não há soluções fáceis no livro de Geraldo Ferraz e nem na vida, não é mesmo?


Trecho Predileto, página 22:
"Às vezes Cordilheira despertava dentro inteirinha das nuvens. Demorava desembaçar-se dos véus. Havia porém dias claros, logo cheios de chuva, ou mesmo de sol e de chuva. Outros, eram meias jornadas límpidas de azul, nunca entretanto 24 horas estáveis. Embora a proximidade da Grande Usina, Cordilheira tinha só uma iluminação pública, a das estrelas, Isto facilitou muitos crimes. Mesmo dentro do nevoeiro quando as nuvens roçavam pelo chão negro de Cordilheira. Todos molhados pisando nas pedras duras, ásperas. Era só o homem que as pisava, nenhum veículo, roda ou casco para quebrar as arestas. E as pedras que os homens pisavam lhes transmitiam mais dureza na solidão de Cordilheira. Para apoio da rua em diagonal olhai como lembra cidadela este retalho de muralha plantado na esquina da ladeira. Musgos verdolengos, limos gordos, liquens, samambaias despontando das gretadas componentes duras.

-- É, que casas - respondeu a senhora como achando o jeito maneiroso de saltar sobre o lameiro e a poça, os santos altos, arrepanhando graciosamente o vestido para não apanhar respingos:
-- Mas sabe, vivem numa tranquilidade, quem me dera a tranquilidade e paz das consciências deles.
-- Ah, sim, é verdade -- retrucou o parceiro.

Não reparou na ambição. Tranquilidade no meio de tanto ferro, fumaça, nuvem, carvão, pedra e muralha!
Tranquilidade minha senhora era um pedaço de ferro no escuro lascando a testa da consciência da paz -- em paz hem -- numa dessas noites sem estrelas de Cordilheira. Era o ódio que vem desde o princípio do mundo: a nossa inteira solidariedade nos crimes "Aquele, uns diziam, já teve o que merecia". Não seria uma reflexão do criminoso mesmo, recuperando o instante?"
Texto de Sandra Abrano



quinta-feira, 6 de julho de 2017

A PRIMEIRA HISTÓRIA DO MUNDO de Alberto Mussa

Record, 2014, Rio de Janeiro, 240 páginas, livro emprestado do parceiro de sarau, Chico Marafa.

Há pouco fiz uma oficina de escrita criativa, mas não vou me alongar a esse respeito por um motivo simples: gostei da proposta inicial, detestei o desenvolvimento e condução, mas dou mão à palmatória ao afirmar que aprendi algumas coisas. A vida é assim: o lado ruim, não é totalmente ruim, não é verdade? Pois nessa oficina de escrita entendi o que Chuck Palahniuk (mais conhecido por ser autor de O CLUBE DA LUTA) insistia em afirmar no texto pregado no abajur da minha mesa de trabalho, local em que invariavelmente meu olhar estaciona várias vezes ao dia: mostre, não conte. 


Não afirme que um personagem está ansioso ou nervoso, mostre isso.


Falar é fácil. Mostrar é bem mais difícil.

Eu me propus a fazer alguns exercícios de escrita até que a noção entre contar e mostrar se solidificasse em aprendizagem automatizada. Afinal, essa é uma das características da literatura contemporânea, a literatura do meu tempo. Eu quero estar antenada com o que acontece e não é a idade cronológica que me afastará dessa turma.

E aí, exatamente nesse momento, A PRIMEIRA HISTÓRIA DO MUNDO chegou às minhas mãos em livro emprestado do Chico Marafa, um dos leitores admiráveis que compõe o sarau do qual eu prazeirosamente participo.

Alberto Mussa CONTA o tempo todo.
Como? Conta e não mostra?
Exatamente.

Resultado de imagem para a primeira história do mundoNesse romance histórico entramos em uma região conhecida como Carioca e também nas primeiras ruas do Rio de Janeiro de 1567. Um romance histórico que também é uma narrativa policial ao investigar o assassinato (verídico) do serralheiro Francisco da Costa, morto com 7 (quase 8) flechas, em um crime em que são suspeitos nada menos do que 15% da população da cidade.

Esse é um livro de ficção em permanente diálogo com a não ficção, ou seria o contrário?

Em boa parte da minha leitura tive a sensação de uma narrativa de não ficção flertando com recursos da ficção. Em um caso ou outro, é uma obra original e necessária, afinal, quer melhor modo de compor o Brasil da época em que mal havia se inaugurado o Brasil, tão em seus primórdios e tão indígena no cotidiano, crenças e mitos fundadores, para, quem sabe, catarmos os cacos do que esse país é hoje, consequência de nossos atos e de nossos antepassados, alguns dos quais são “contados” na primeira história do mundo com a participação das populações nativas e estrangeiras, essa última com tanta necessidade de poder e enriquecimento imediato em que, como sempre, os fins justificam todos os meios. Como antes, nesses primórdios, como agora na atualidade.

Mas não se pense que a narrativa é um tormento político histórico. Nada disso, antes de tudo, A PRIMEIRA HISTÓRIA DO MUNDO tem a ver com o amor, o ciúme e, quem sabe, o assassinato de Francisco da Costa tenha sido um crime... passional.

Trecho Predileto (há outros, todos longos, então, restrinjo a esse), p. 64/66 :
“Quando pisaram na praia, contudo, viram os nativos. Andavam mesmo todos nus; e, à exceção da parte de trás da cabeça, não tinham pelos no corpo, nem nos supercílios, nem na região pubiana. Usavam brincos de osso, braceletes de penas, colares de dentes e miçangas. Os homens, além desses adornos, levavam umas pedras verdes enfiadas nos lábios de baixo e às vezes pelas próprias bochechas.Lourenço Cão, aliás, talvez tenha sido o único dentre os estrangeiros a reparar melhor nos homens; tinham eles grandes cicatrizes no peito, nos braços, nas coxas. Não eram, todavia, ferimentos de guerra, pois tinham tamanho, espessura e recorte semelhantes. E havia um padrão naquilo: quanto mais velho era o indivíduo, mais cicatrizes exibia. Finalmente, Lourenço Cão identificou um princípio na disposição delas, como se fossem um desenho, como se constituíssem uma escrita. Essa afirmação, absurda, foi testemunhada pelo calafate.O capitão, animado com a índole aparentemente amistosa dos selvagens, apesar de estarem todos armados, tentou estabelecer um diálogo gestual, mostrando moedas de ouro e prata, tentando saber se existiam ali metais como aqueles.Toda essa cena, contudo, parece não ter interessado a certa personagem: o grumete, que fora ao porão trazer o prisioneiro. Admirava, esse rapaz, visivelmente excitado, a nudez das mulheres. Chegara a expressar um desejo temerário, que o gajeiro reprimira ainda no convés. Estavam a uma certa distância dos índios, tentando entabular aquele impossível diálogo.Foi quando uma das moças veio, sorridente, na direção dos estrangeiros. E parou ali, nua, completamente nua, diante dele, grumete (que certamente a atraíra pela insistência dos olhares), para experimentar, com os dedos, agora rindo muito, a textura da roupa e dos cabelos – que eram louros.Ocorreu, então, no rapaz, uma mudança. Nunca tivera, o grumete, uma mulher (é a afirmação do gajeiro). Nunca tinha visto uma mulher sem roupa. Conhecia apenas (a presunção é minha) a prática vulgar entre camaradas marinheiros. Tinha, logo, uma curiosidade muito natural.Assim, aquela nudez de moça, oferecida tão de perto, o alienou do mundo. E ele se atirou, ensandecido, sobre ela, tentando se desvencilhar das calças, enquanto abocanhava, com a boca inteira, um daqueles rijíssimos peitinhos.Não é difícil imaginar a reação dos nativos. Por sorte, não dispararam as flechas, talvez com medo de errarem o alvo e atingirem a indiazinha. Mas vieram, todos, contra os estrangeiros. Antes, porém, que os alcançassem, Lourenço Cão, num rompante, cravou a faca no pescoço do rapaz. Faca que dele mesmo recebera (como julgo ter deduzido), ainda no porão, para não estar completamente desarmado.Chegavam, enfim, ao verdadeiro mundo novo.”

terça-feira, 30 de maio de 2017

DOM QUIXOTE de CERVANTES

Mais de quatro séculos depois e DOM QUIXOTE continua seu destino de sucesso: a alguns faz rir, a outros faz chorar, em algumas situações pode até constranger, compadecer, emputecer, aborrecer. Mas que livro esse que não deixa o leitor sossegado.

Trecho Predileto? 
No plural: trechos prediletos. 





Aqui só um aperitivo. Meu exemplar de dom Quixote ficou marcado pela atuação de uma leitora participativa: destaques, exclamações, orelhas!
Sacrilégio. 


Prólogo da Primeira Parte

“Desocupado leitor, não preciso jurar para que creias que eu quisera que este livro, como filho do entendimento, fosse o mais formoso, o mais galhardo e mais discreto que se pudesse imaginar. Porém, não pude contravir à ordem da natureza, na qual cada coisa gera outra que lhe seja semelhante. E, assim, o que poderia criar, a estéril e mal cultivada argúcia minha, senão a história de um filho magro, amalucado, caprichoso e cheio de pensamentos vários e nunca imaginados por outra pessoa, tal como quem foi gerado em um cárcere, onde todo o desconforto tem seu assento e onde todo triste ruído faz a sua habitação?” 


Capítulo I Que trata da condição e exercício do famoso fidalgo dom Quixote de La Mancha

“Em um lugar de La Mancha, de cujo nome não quero lembrar-me, não há muito vivia um fidalgo desses com lança guardada, escudo oval antigo, rocim fraco, e galgo corredor.”

“É, pois, de saber que este fidalgo nos intervalos de ócio -- que eram os mais do ano --, se dava a ler livros de cavalarias, com tanta dedicação e gosto, que esqueceu quase de todo o exercício da caça, e até a administração dos seus bens; e chegou a tanto sua curiosidade e desatino, que vendeu muitos trechos de terra de semeadura para comprar livros de cavalarias, e assim, levou a sua casa todos quanto pôde haver deles.”

“Então, rematado já de todo o juízo, deu no mais estranho pensamento em que jamais deu louco algum deste mundo, e foi que lhe pareceu conveniente e necessário, tanto para o aumento de sua honra quanto para proveito da república, fazer-se cavaleiro andante e ir-se pelo mundo com suas armas e cavalo, em busca de aventuras e a exercitar-se em tudo aquilo que tinha lido se exercitavam os cavaleiros andantes, desfazendo todo o gênero de agravos e pondo-se em ocasiões e perigos que, vencidos, rendesse perpétuo nome e fama.” 

Capítulo V  Em que prossegue a narrativa da desgraça do nosso cavaleiro

“-- Onde estás, senhora minha,
Que te não dói o meu mal?
Ou não nos sabes, senhora,
Ou és falsa e desleal.

Seleção de trechos: Sandra Abrano

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sábado, 29 de abril de 2017

O BICHO DA SEDA Robert Galbraith

Não deve ser fácil a vida de escritor famoso e rico:  cobranças por todos os lados, em todas as resenhas, invejinhas, dúvidas quanto à capacidade literária etc etc etc Mais difícil ainda é a vida do escritor que alcançou destaque mediano em algum momento da carreira literária, porém, o sucesso não chegou aos livros que se sucederam.

É mais ou menos esse o mundo em que se passa O BICHO-DA-SEDA de Robert Galbraith em seu segundo livro (o primeiro foi O CHAMADO DO CUCO) e para quem não sabe, Robert G. é pseudônimo de J. K. Rowling, autora da série Harry Potter.


O PERSONAGEM
Cormoran Strike tem lá seus trinta e cinco anos e aparenta mais. Ex-fuzileiro na guerra do Afeganistão, país onde perdeu parte de uma perna e um tanto de energia. Homenzarrão na altura e dimensão, é filho bastardo de um dos reis do rock inglês. Cormoran ganhou fama em Londres por esse fato e também por ter desvendado um caso difícil, contado no livro anterior. Manteve por dezesseis anos um relacionamento com uma linda mulher complicada e ainda amarga um tanto nessa relação mal resolvida.

Robin é sua jovem assistente, noiva de Matthew que morre de ciúmes de Strike.


A TRAMA
Leonora contrata Strike para localizar seu marido, o escritor Owen Quine, que saiu de casa há dez dias e não deu mais notícias. Leonora acha que o marido está em um retiro de escritores, mas não consegue o endereço ou o telefone do local.

Owen Quine escreveu um livro de sucesso há anos e, depois desse primeiro lampejo de sucesso, desaparece de tempos em tempos tentando dar visibilidade aos seus próximos lançamentos.

Strike passa os próximos dias tentando encontrar pistas de Owen Quine. Procura a agente literária, o editor, a amante do escritor, mas não obtém sucesso. Enquanto isso, o mundo literário entra em efervescência quando vem à tona que o último original entregue à editora de Owen, coloca  em situações vexatórias e escatológicas desafetos e amigos do escritor.

Bombix Mori é o título do original e se transforma em uma febre compartilhada em segredo pelo mundo editorial londrino e sofre a propulsão de uma bomba potente quando Owen é encontrado morto, exatamente como descreve em Bombix Mori.

Livro digestivo, romance policial bem amarrado, com personagens delineados satisfatoriamente, em narrativa envolvente. Isso até chegar o momento em que Cormoran Strike sente que encontrou a resposta para todo o enigma. O investigador toma decisões e faz interrogatórios em que só ele  sabe onde quer chegar, por consequência, só ele amarra as pontas do enigma.

Pena. Poderia ser um ótimo momento compartilhado. Cormoran (e a autora)
fez questão do prazer solitário.

De qualquer maneira, J.K.Rowling sabe contar uma história que se passa distante do mundo da magia, mas em que a realidade continua estranha, muito estranha.

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sexta-feira, 31 de março de 2017

MEU NOME É VERMELHO de Orhan Pamuk

Companhia das Letras, 2004, São Paulo, 534 páginas.


Estamos no fim do século XVI, Istambul, em um ateliê de pintores miniaturistas que segue os preceitos do Islã, sendo o mais básico e fundamental deles é que toda a arte figurativa constitui uma afronta.


Porém, a arte retratista veneziana e a pintura renascentista já influencia a uns poucos por sua técnica artística tão diversa do que prega o islamismo. Tio Efêndi é um deles. Usa de sua influência junto ao sultão para sugerir uma obra ilustrada ao estilo estrangeiro. O sultão, então, encomenda ao Tio Efêndi um livro que pretende dar de presente ao doge de Veneza, com pinturas inspiradas na arte otomana usando algumas técnicas venezianas, para com isso demonstrar a superioridade islâmica ao mundo ocidental.

O projeto corre em absoluto segredo com Tio Efêndi coordenando o trabalho de quatro dos mais talentosos miniaturistas: Cegonha, Borboleta, Oliva e Elegante Efêndi.

Dezenove narradores se alternam para compor esse romance histórico permeado pela arte, filosofia e religião e, também, amor, ciúme, rivalidade, inveja, cobiça. Quer mais? Assassinatos e uma a intensa investigação.

O que dizer desse livro? 


É um livraço.

É pouco?
Então, o que dizer de Orhan Pamuk? 


O autor tem pleno domínio da narrativa. 

E isso é um grande elogio. Se não acredita, pergunte a algum amigo escritor e veja o que ele responde. 

Além disso, Orhan Pamuk condena publicamente o genocídio de armênios ocorrido durante a Primeira Guerra Mundial e atua na defesa dos direitos políticos dos curdos. Sua atuação internacional nessas duas questões o levou a ser processado pelo governo turco, em caso que provocou polêmica internacional.

Bom, eu já disse que são dezenove narradores. O que eu não disse é que, entre eles, há o "Eu sou meu cadáver" e "Eu, o Cão" e "Serei chamado Assassino" e, por que não, "Eu, o Diabo", de quem extraio um trecho da página 376 / 377. É um trecho um pouco longo, mas vale a pena:

"Comecemos do começo. Todo o mundo se agarra ao fato de que fiz Eva comer o fruto proibido, mas esquecem como tudo isso começou. Não, não começou tampouco com minha arrogância diante de Alá. Antes de tudo o mais, houve essa história de Ele nos apresentar o homem e querer que nos inclinássemos diante deste, o que encontrou minha legítima e decidida recusa, embora os outros anjos tenham obedecido. Vocês acham correto que, depois de me ter criado do fogo, Ele exija que eu me incline diante do homem, que Ele criou do mais reles barro? Ora, meus irmãos, digam a verdade, em sã consciência! Está bem, sei que vocês já pensaram no assunto mas temem que o que for dito aqui não fique apenas entre nós: Ele vai ouvir tudo e um dia vai lhes pedir explicações. Tudo bem, não me interessa saber por que Ele lhes deu uma consciência assim. Admito, vocês têm por que ter medo, portanto vamos deixar pra lá essa questão do barro e do fogo. mas tem uma coisa de que não me esqueço nunca, sim, uma coisa de que sempre me orgulharei: nunca me inclinei diante do homem.

Ora, é precisamente o que fazem os europeus. De fato, não só eles fazem questão de retratar e de exibir todos os detalhes daqueles grão-senhores, daqueles padres e daqueles ricos mercadores, e até das mulheres deles -- cor dos olhos, textura da pele, contornos dos lábios, efeitos de sombra de um decote, rugas na testa, anéis nos dedos, até os tufos de pêlo que saem das orelhas --, mas ainda por cima colocam essas pessoas no centro de seus quadros, que exigem igual fazem com seus ídolos, como se o homem fosse um objeto de culto e todos devessem se prosternar diante dele! Ora, porventura o homem é tão importante assim para que desenhem todos os seus detalhes, inclusive sua sombra? Se desenhássemos as casas de uma rua de acordo com a falsa percepção do homem, isto é, diminuindo de tamanho à medida que estão mais distantes, não seria usurpar para o homem o centro do mundo, que é o lugar que cabe a Alá? Bem, Ele, o Todo-Poderoso, em sua clarividência, saberá julgar melhor que eu, mas acho que todos compreenderão que é um absurdo me culpar pela ideia de fazer esses retratos, logo a mim que sofro as consequências -- a dor indescritível do exílio, a perda da graça de Alá, de quem eu era o favorito, tornando-me objeto de pragas e injúrias -- da minha recusa original de me inclinar diante do homem. Mais razoável seria fazer como certos mulás e pregadores esclarecidos que me apontam como responsável pelas crianças brincarem com suas partes e as pessoas peidarem."

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segunda-feira, 27 de fevereiro de 2017

O SINEIRO Edgar Wallace

Ediouro,  Rio de Janeiro, 1983, 178 páginas. Edição popular, com introdução de Paulo Mendes Campos.



O escritor e dramaturgo inglês Edgar Wallace viveu 57 anos (faleceu em 1932) e, nesse meio tempo, escreveu 175 livros, 24 peças de teatro, além de publicação de contos policiais em jornais. 



A esses números espantosos, fico sabendo que 160 filmes foram lançados a partir de seus escritos. A tentação em ler um dos quase vinte livros que tenho dele aqui no sebo foi forte. Escolhi O SINEIRO, inicialmente adaptado como peça de teatro alcançando grande sucesso. Edgar Wallace adaptou o texto para romance policial e aí estava eu debruçada nesta edição popular da Ediouro, letra minúscula, papel amarelado pelo tempo.

O SINEIRO é o homem de mil disfarces, capaz de enganar sua própria esposa com seus estratagemas (que dirá os policiais). Forjou sua morte na Austrália, mas não conseguiu ludibriar por muito tempo os atentos detetives da Scotland Yard que amargam o insucesso nas tentativas de capturá-lo. Volta a Londres ignorando o perigo, em busca de vingança pela morte de sua bela irmã Gwenda Milton, suicida. O Sineiro atribui a responsabilidade pelo fato ao ardiloso advogado Messer. 


Messer treme nas bases com a possibilidade de ser objeto de vingança do perigoso Sineiro, mas isso não o impede de continuar como intermediário em roubos milionários e em não dar paz à sua nova e linda secretária, vítima de seu assédio.

O tempo todo da leitura é como se as cenas se passassem na tela mental da minha memória. Já vi esse filme antes? Não sei. Mas todo o clima, descrição de personagens e momentos de tensão se passam em clima de filme noir.

Respondendo à pergunta se já vi esse filme antes, respondo que adoro uma reprise de filme noir...
Resenha de Sandra Abrano
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O impostor Javier Cercas

Biblioteca Azul, Editora Globo, São Paulo, 2015, 464 páginas.

Em 2016, após a leitura de O MOTIVO e O VENTRE DA BALEIA, Javier Cercas se tornou meu escritor predileto e eu estava ansiosa para começar a leitura de O IMPOSTOR, seu último lançamento no Brasil. 

Logo na primeira linha da primeira página Javier Cercas me sai com:


"Eu não queria escrever este livro."

Está certo, se antes eu estava ansiosa continuei a leitura, agora curiosa.
E, no segundo parágrafo:


"Os primeiros parágrafos de um livro são sempre os últimos que eu escrevo. Este livro está concluído. Este é o último parágrafo que escrevo. E, sendo ele o último, agora sei por que eu não queria escrever este livro." 



O motivo alegado pelo autor é o medo. "A única coisa que eu sei agora é que o meu medo era justificado."

Javier Cercas investiga detalhadamente a história de Enric Marco que se dizia sobrevivente dos campos de concentração nazistas, líder sindical, um resistente contra a ditadura de Franco. Em 2005 sua história veio à tona como uma grande farsa, desmascarada pelo historiador Benito Bermejo. 

Em O IMPOSTOR, o narrador inicia uma longa série de entrevistas com Enric Marco, acompanhado por seu filho em idade pré-vestibular que tem a missão de filmar os depoimentos. Enric Marco fornece em uma intensa, verborrágica e infindável falação com justificativas, detalhes, nomes de pessoas. Estas são minuciosamente investigadas e, uma a uma, desmontadas. Pequenos fatos verdadeiros em uma imensa trama mentirosa, construída durante anos por Marco.

E assim a narrativa segue milimetricamente, passo a passo, no desmonte da falácia de Enric Marco. 

Javier Cercas afirma que O IMPOSTOR é um romance sem ficção. Já que a vida de Marco em si é uma grande invenção, Cercas parte em busca da verdade.

A busca pela fama, celebridade (tão em voga nesses tempos contemporâneos) acaba encontrando a pós verdade. Fatos que aparentam ser verdade são mais importante que a verdade? Afinal, a memória individual e coletiva podem ser moldadas impunemente? Para Enric Marco não. O caso de impostura tornou-se conhecido no mundo e Enric Marco passou de herói a um dos maiores impostores dos últimos tempos. 

Javier Cercas, nesse livro, leva muito à sério a série de depoimentos e o posterior desmanche dos fatos para a busca da verdade. Minúcias de acontecimentos, entrevistas com algumas testemunhas, verificação em periódicos, investigação cuidadosa. Detalhes demais para uma leitora em busca de uma narrativa menos minuciosa.

Insisti na leitura por um bom número de páginas. Desisti. Voltei ao livro, inconformada com a minha incapacidade de seguir adiante. Desisti pela segunda vez. Apesar de achar interessante a tese que aos poucos vai se delineando nessa busca dos limites entre a ficção e a verdade, não consegui seguir adiante.

Não costumo abandonar leituras. Mesmo. Sou de uma resistência já provada em livros que outros falharam. Nesse, fui vencida pelos cacos de verdade que à muito custo brilhavam na narrativa.

Não entreguei os pontos definitivamente.
O livro continua ali, no criado-mudo. 

Javier Cercas não abandonou o posto de escritor preferido. Vou atacar em breve OS SOLDADOS DE SALAMINA para desfazer meu fracasso.


Trecho Predileto, página 21.
"Poucos dias depois da explosão do caso, eu tinha lido no diário El Punt (ou em algum serviço de notícias on-line criado pelo diário El Punt) um artigo em que também faziam isso. Intitulava-se 'Mentiras', trazia a assinatura de Sílvia Barroso, e a autora dizia que o caso Marco a surpreendera no momento em que estava lendo o final de um romance meu em que o narrador anuncia a sua decisão de 'mentir sobre tudo, tão somente para contar melhor toda a verdade". Acrescentava que em meus livros eu costuma explorar as fronteiras entre a mentira e verdade e que em alguma ocasião me escutara dizer que, às vezes, 'para se chegar à verdade, é preciso mentir'. Barroso me igualava a Marco? Insinuava que eu também era um embusteiro, um impostor? Felizmente não, pois em seguida ela acrescentava: 'A diferença entre Cercas e Marco é que o romancista tem licença para mentir'."

Resenha de Sandra Abrano


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terça-feira, 24 de janeiro de 2017

A INVASÃO Ricardo Piglia

Iluminuras, São Paulo, 1997,126 páginas.


Não faz muito tempo soube que Ricardo Piglia estava doente.


A notícia da gravidade da doença e suas consequências pra lá de danosas, chegaram para mim um pouco antes da morte do escritor argentino.


Senti tristeza como se ele fosse uma pessoa próxima, um chegado, alguém de quem eu gostasse de receber notícias, acompanhar por onde corriam seus pensamentos.


Eu me preparava para ler algo mais atual, para verificar se ele continuava tão cerebral como em RESPIRAÇÃO ARTIFICIAL ou se havia deixado as emoções se aproximarem de sua escrita, tal como em alguns dos contos de A INVASÃO, o primeiro livro publicado. Do lançamento desse livro de contos à minha leitura se passaram... cinquenta anos!

Quanto às minhas leituras, tenho de admitir a tendência de estar atualizada com o passado. Não poderia ser de outra forma, minha casa cheia de livros antigos, edições fora de catálogo, clássicos em graphia ultrapassada. Tenho um sebo e minha pilha de livros prediletos acompanha a vagarosa manutenção do catálogo. 

Para me proteger da desatualização, acompanho resenhas de lançamentos, vou a encontros e debates literários, perco um tempo no youtube escutando o que os escritores tem a me dizer. Ricardo Piglia me disse muito. Uma das que sempre lembro é a que conta de sua mania de engavetar os originais, deixá-los de lado por um tempo para fazer a revisão depois de um saudável distanciamento. Brincou, dizendo que pensava parar com isso,  teria que ser mais ágil porque, afinal, estava na época com setenta anos.

A notícia da morte de Ricardo Piglia me pegou em meio à leitura de A INVASÃO, seu primeiro livro.


Trecho Predileto, página 63.
"O maior incômodo desta história é ela ser verdadeira. Engana-se quem pensa que é mais fácil contar fatos verídicos do que inventar um enredo, suas relações e suas leis. A realidade, como se sabe, tem uma lógica esquiva; uma lógica que, às vezes, parece impossível de narrar."







Resenha de Sandra Abrano

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segunda-feira, 16 de janeiro de 2017

O NEGOCIANTE DE INÍCIOS DE ROMANCE Matéi Visniec

É Realizações Editora com apoio do Instituto Cultural Romeno, 2015, São Paulo, 384 páginas.

O OBJETIVO DESSE LIVRO? Matéi Visniec é quem conta:


"Que será que nos falta neste mundo para estarmos tão dispostos a começar tudo do início, vezes sem conta, com uma espécie de eterna esperança de que a próxima sequência será melhor, eventualmente mais divertida, mais estimulante? Hollywood entendeu isso há muito tempo e nos filmes que produz, a cada 45 segundos, surge uma nova descarga de adrenalina, sendo toda a narração uma sucessão de inícios excitados.
Resultado de imagem para Mátei VisniecÉ este o PONTO DE PARTIDA de meu romance, em que tento observar a evolução de um tipo de droga social: a DEPENDÊNCIA DA ILUSÃO DO INÍCIO. E por que não escrever, num mundo em que apenas os inícios são sedutores, um romance formado só de inícios?"


Moro nas proximidades da USP e ir à sua Feira de Livros é uma danação econômica anual que cumpro com prazer e resmungos de "ai, quanta gente". Em 2016 procurei o estande da É Realizações atrás de publicações de escritores nacionais. Descobri que esse não era o forte da editora, mas fiquei surpresa com a coleção de dramaturgia com cerca de 17 títulos do romeno Matéi Visniec, além do livro O NEGOCIANTE DE INÍCIOS DE ROMANCE do mesmo autor, que acabei comprando.



O ARGUMENTO

Um escritor, aspirante a tornar-se famoso, conhece Guy Courtois na entrega de um prêmio literário não muito importante. Guy Courtois apresentou-se como representante de uma agência que cria inícios de romance. Entre seus clientes, prêmios Nobel, escritores conceituados, a fina flor da literatura mundial.

O escritor (romeno de nascimento e morador de Paris), não estava interessado nos préstimos de Courtois naquele dia da entrega do prêmio literário. Só mais tarde o procuraria e, a partir daí, se mostraria um escritor de produção incessante, dedicado intensamente à produção literária, aguardando que lhe chegasse às mãos a ansiada frase inicial do livro que o levaria ao sucesso, quem sabe ao prêmio Nobel.


E Matéi Visniec, tal qual Calvino em SE UM VIAJANTE EM NOITE DE INVERNO, começa e não necessariamente termina (e a comparação com Calvino aí termina) a sua copiosa produção. O mais interessante nesse caminho é a discussão a respeito da literatura, da produção literária, da tecnologia e seus recursos digitais auxiliando o escritor a traduzir sentimentos em palavras.


O absurdo toma conta do livro, na minha opinião, por um trecho longo demais. Tivesse o livro mais enxuto de páginas, mais concentrado na prosa, o resultado ganharia em densidade.



Apesar dessa observação negativa, segui sem descanso pelas quase 390 páginas, eu também atrás da frase, aquela frase especial que marcaria o início de um caminho para a glória literária.

De quebra, o delicioso (e triste) trecho que discute a Romênia e sua literatura pouco reconhecida além de suas fronteiras e, talvez por isso mesmo, com tanta necessidade de afirmação estrangeira.

Se o autor se pergunta porque nenhum escritor romeno ganhou um Nobel, nós aqui no Brasil justificamos de várias formas a ausência do laurel. Não estamos e nunca estivemos sequer no páreo. Somos carta fora do baralho.


Literatura romena? Hein?
Literatura brasileira? Hein?

Voltando... O NEGOCIANTE DE INÍCIOS DE ROMANCE é um livro que faz pensar na escrita e em seus processos, faz pensar na insistência obstinada de escritores nunca lidos e em sua produção literária calada por falta de leitores. Por quê mesmo ser um aspirante a escritor?

Trecho Predileto, pagina 42.
"Hoje, a mãe morreu."Você acha mesmo que uma asserção tão simples pode sair da mente de um escritor? Asseguro-lhe que não. Escritor é, por regra, pessoa complicada, dilacerada intimamente, contorcida, cheia de contradições consumida por ambições, muito pouco generosa, se bem que se inflame com a ideia de humanidade.Não, lhe asseguro que Albert Camus nunca teria começado o romance O ESTRANGEIRO com essa frase se não a tivéssemos fornecido nós.[...]"Hoje, a mãe morreu."Que imprevisível, que promissor e convincente início de romance! Um romance curto, como deve se lembrar. Quem é que não leu Camus logo por volta de quinze ou dezesseis anos? Não foi dito, de fato, sobre Camus (com certa maldade, aliás) que é, basicamente, um escritor para alunos de liceu, até um filósofo para alunos de liceu? E quem acha que colou essa etiqueta em Camus? O bando de escritores sofisticados à roda de Sartre, aqueles afetados grafocêntricos, incapazes de dizer uma frase coerente sem a acompanhar de fumos gestuais e ênfase interior. Imagine só quanto sofreram esses impotentes pedantes, com veleidades esquerdistas, ao ver Albert Camus receber o prêmio Nobel com apenas 44 anos."

Página 378.

"-- O que é um romance? Antes de tudo, uma quantidade de tempo. Quando você vê um romance numa livraria, estando atento, pode avaliar rapidamente a quantidade de tempo nele contida. E isso nos dois sentidos: o tempo necessário ao autor para o escrever e, implicitamente, o tempo necessário a você para o ler.[...]-- E há mais uma coisa, uma coisa que ninguém pode avaliar. A saber, durante quanto tempo você será influenciado por um romance após sua leitura. Há romances que o acompanham por toda a vida, que ficam em você, que perduram. Por isso digo que um bom romance é uma vitória sobre o tempo."


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quarta-feira, 14 de dezembro de 2016

REMINISCÊNCIAS Marcelo Nocelli

Editora Reformatório, São Paulo, 2013, 150 páginas.

Estou para ver uma foto de capa tão adequada para representar os contos de Marcelo Nocelli em REMINISCÊNCIAS. Homem de cabelos fartos, grisalhos. Rosto em que as rugas compõem a fisionomia como testemunhas do que ocorreu. O olhar pousado para além da janela; janela com madeiramento desgastado marcada pela ação do tempo. Homem pensativo, boca larga, tensa, vincada, mãos apoiando o queixo em pose ultrapassada, tal como a memória, lembrança do que foi.


Feliz fotografia para representar os dezessete contos. 

Lembrança, saudade, solidão e um tanto de rancor. 

Contos curtos na medida exata para incomodar a memória, essa memória pessoal que todo leitor tem de sobra e os escritores, então... Texto direto, mas carregado de emoção.


Trecho Predileto, página 140.
"Durante os últimos anos da minha vida, ela foi a única companheira. Talvez por isso perdi totalmente a noção de como somos sós no mundo. Minhas dúvidas, alegrias, angústias e tantos outros sentimentos sempre foram confidenciados em nossa intimidade. Minha única ouvinte interessada. Não posso desapontá-la agora. Minha única ligação com o mundo. O que segredar aqui, por mais insano, vergonhoso ou até imoral que seja, chegará aos outros de forma entendível. Ela sempre faz isso." [...]

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segunda-feira, 28 de novembro de 2016

DESNORTEIO Paula Fábrio

Patuá, São Paulo, 2012, 144 páginas.

Esse é um livro para ser relido.

Texto montado em frases curtas, tempo em vai e vem sem ordem cronológica, narrativa fragmentada regida pelas lembranças que parecem não ser de fácil digestão a quem nos conta.

Está certo, descrito assim se corre o risco de afastar o leitor propenso a uma boa leitura, mas que também busca entretenimento. Vou ser sincera, fico preguiçosa ao me deparar com textos que querem quebrar estruturas e padrões de escrita sem colocar os efeitos a serviço do que se quer contar. Eu me senti um pouco mais apreensiva ao perceber nomes de pessoas e locais em "caixa baixa", isto é, minúscula. O que será que Paula Fábrio quis passar com essa quebra de padrão na língua portuguesa?

Não que a leitura de DESNORTEIO seja trabalhosa, apenas demora umas tantas páginas para que as as intensões da autora se encaixem. Zona de conforto nem pensar, o que Paula Fábrio pretende é que o leitor sinta o desnorteio, inclusive nas regras narrativas. Não é assim com a vida? A vida não segue a coerência de uma novela de TV.

Conhecemos aos poucos a família Oliveira. Três irmãos e duas irmãs moradores em uma casa popular em Sorocaba, interior de São Paulo. As irmãs seguem sua vida. Uma delas, a dentuça, se casa com o "Clark Gable", resumido como homem mulherengo e com bigodinho fino. Lembra a outra irmã:

"Com as mãos lentas, a mulher distribui o pão sobre o prato antigo e esse movimento vagaroso é um convite para desviar a atenção e recordar o menino imberbe do trem quando este já era moço e usava bigode fino ao estilo clark gable. Considerou que a irmã tinha feito um bom casamento. Cabelos fartos, olhos amarelos e rosto quadrado. Sim, a maria luísa conseguira um senhor casamento. Pena que foi ter acontecido tudo aquilo. Não gosta nem de pensar."

Benê, Miguel e Dorfo são os três rapazes. Benê, descrito como um Quixote alto e magro. Miguel, um artista que, não se sabe, começou a beber porque não encontrou o sucesso ou, ao primeiro sinal de destaque, encontrou prazeres que o tiraram do rumo. Dorfo não é fácil. Construiu um quartinho isolado da casa e, tendo sempre à mão um porrete, assegura que ninguém o incomode.

Benê e Miguel vendiam bilhetes de loteria para sustentarem as necessidades mais básicas. A miséria rondava-os, o discernimento às vezes lhes fazia falta. Mendigos. A casa em Sorocaba em ruínas era o refúgio.

As irmãs olhavam, se desesperavam, e agiram para internar Benê detido por assediar mulheres.

Já disse antes em alguma outra resenha e aqui reitero que tenho profunda simpatia por escritores que tratam seus personagens com afeto. Não os poupam da vida que, na regra, não é fácil, mas os personagens estão sob as palavras de quem tem carinho por eles.

Paula Fábrio é uma dessas escritoras. A dureza dos fatos, os sentimentos contraditórios que se apresentam frente à doença, às fragilidades olhadas de frente, sem dó, mas com afeto. Como seria mais fácil descrever situações em que se apresentem heróis ou cafajestes, crápulas masculinos e femininos, colocar a maldade regendo os acontecimentos.

Paula Fábrio consegue o feito de dirigir o olhar do leitor aos três homens, mendigos. Faz com que acenemos de volta ao cumprimento de um deles.

O mistério que Paula Fábrio coloca ao leitor é insolúvel e tocante.

Trecho Predileto, página 53
"Dez horas. Quarta de cinzas. 1985.

O café está servido. Se pudesse, carminha adoçaria também as palavras.

A senhora de cabeleira branca sorve o primeiro gole e observa. Observa como o tempo também passou para a filha. E disfarça.
Uma mãe deve ser prudente, deixar os filhos envelhecer por si mesmos. Mas não havia perigo, carminha não estava a ler seu rosto. Outras apreensões pesavam cada sílaba da notícia que lhe ocorrera.

-- Vó Carmela acaba de morrer.

Respiraram silêncio. Dois, três minutos.

-- Ontem, pela última vez balançou os bracinhos miúdos, enquanto eu dizia 'Vó Carmem, hoje é terça-feira gorda".

A saudade começou nesse instante. mas ninguém percebeu.

-- Fazia vista grossa pra gente ir ao baile. 

Gaiata, aproveitou até o último minuto. Hora de comer e beber. E olha que vem gentarada.

teresa foi vestir a mãe para o último folguedo, a fim de que Carmela estivesse livre dos vestígios do penhoar rasgado ou para que não se colocasse só de anáguas, como caberia a um defundo folião fazer sua derradeira aparição pública.

Quase um bloco carnavalesco. Esse seria o retrato fiel do enterro da mãe Oliveira. Mas não se usa fotografar passamentos. Mesmo quando o morto insiste em sorrir e dezenas de pessoas concorram para se despedir. Popularidades da mendicância. Como bem cabe ao espírito de Carmela, a peregrinar pelas ruas, catando lixo e acenando para cada um que lhe cruze o caminho.

Ausência. Só Dôrfo. Trancado no cubículo.

Bené e Miguel seguiram o caixão até que a terra cobrisse por completo. Miguel escondeu o rosto entre as mãos.

Bené comentou que a mãe havia sido enterrada na alameda x, número y, do cemitério da saudade, e que ele não haveria de esquecer nunca, porque a localização era formidável, bem ao lado dos despojos das famílias de elvis e elis.

E lá se foram todos comer e beber o morto. Todos não. Exceto Bené e Miguel. Não se convidam os loucos, nem os poetas."

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