terça-feira, 30 de maio de 2017

DOM QUIXOTE de CERVANTES

Mais de quatro séculos depois e DOM QUIXOTE continua seu destino de sucesso: a alguns faz rir, a outros faz chorar, em algumas situações pode até constranger, compadecer, emputecer, aborrecer. Mas que livro esse que não deixa o leitor sossegado.

Trecho Predileto? 
No plural: trechos prediletos. 





Aqui só um aperitivo. Meu exemplar de dom Quixote ficou marcado pela atuação de uma leitora participativa: destaques, exclamações, orelhas!
Sacrilégio. 


Prólogo da Primeira Parte

“Desocupado leitor, não preciso jurar para que creias que eu quisera que este livro, como filho do entendimento, fosse o mais formoso, o mais galhardo e mais discreto que se pudesse imaginar. Porém, não pude contravir à ordem da natureza, na qual cada coisa gera outra que lhe seja semelhante. E, assim, o que poderia criar, a estéril e mal cultivada argúcia minha, senão a história de um filho magro, amalucado, caprichoso e cheio de pensamentos vários e nunca imaginados por outra pessoa, tal como quem foi gerado em um cárcere, onde todo o desconforto tem seu assento e onde todo triste ruído faz a sua habitação?” 


Capítulo I Que trata da condição e exercício do famoso fidalgo dom Quixote de La Mancha

“Em um lugar de La Mancha, de cujo nome não quero lembrar-me, não há muito vivia um fidalgo desses com lança guardada, escudo oval antigo, rocim fraco, e galgo corredor.”

“É, pois, de saber que este fidalgo nos intervalos de ócio -- que eram os mais do ano --, se dava a ler livros de cavalarias, com tanta dedicação e gosto, que esqueceu quase de todo o exercício da caça, e até a administração dos seus bens; e chegou a tanto sua curiosidade e desatino, que vendeu muitos trechos de terra de semeadura para comprar livros de cavalarias, e assim, levou a sua casa todos quanto pôde haver deles.”

“Então, rematado já de todo o juízo, deu no mais estranho pensamento em que jamais deu louco algum deste mundo, e foi que lhe pareceu conveniente e necessário, tanto para o aumento de sua honra quanto para proveito da república, fazer-se cavaleiro andante e ir-se pelo mundo com suas armas e cavalo, em busca de aventuras e a exercitar-se em tudo aquilo que tinha lido se exercitavam os cavaleiros andantes, desfazendo todo o gênero de agravos e pondo-se em ocasiões e perigos que, vencidos, rendesse perpétuo nome e fama.” 

Capítulo V  Em que prossegue a narrativa da desgraça do nosso cavaleiro

“-- Onde estás, senhora minha,
Que te não dói o meu mal?
Ou não nos sabes, senhora,
Ou és falsa e desleal.

Seleção de trechos: Sandra Abrano

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sábado, 29 de abril de 2017

O BICHO DA SEDA Robert Galbraith

Não deve ser fácil a vida de escritor famoso e rico:  cobranças por todos os lados, em todas as resenhas, invejinhas, dúvidas quanto à capacidade literária etc etc etc Mais difícil ainda é a vida do escritor que alcançou destaque mediano em algum momento da carreira literária, porém, o sucesso não chegou aos livros que se sucederam.

É mais ou menos esse o mundo em que se passa O BICHO-DA-SEDA de Robert Galbraith em seu segundo livro (o primeiro foi O CHAMADO DO CUCO) e para quem não sabe, Robert G. é pseudônimo de J. K. Rowling, autora da série Harry Potter.


O PERSONAGEM
Cormoran Strike tem lá seus trinta e cinco anos e aparenta mais. Ex-fuzileiro na guerra do Afeganistão, país onde perdeu parte de uma perna e um tanto de energia. Homenzarrão na altura e dimensão, é filho bastardo de um dos reis do rock inglês. Cormoran ganhou fama em Londres por esse fato e também por ter desvendado um caso difícil, contado no livro anterior. Manteve por dezesseis anos um relacionamento com uma linda mulher complicada e ainda amarga um tanto nessa relação mal resolvida.

Robin é sua jovem assistente, noiva de Matthew que morre de ciúmes de Strike.


A TRAMA
Leonora contrata Strike para localizar seu marido, o escritor Owen Quine, que saiu de casa há dez dias e não deu mais notícias. Leonora acha que o marido está em um retiro de escritores, mas não consegue o endereço ou o telefone do local.

Owen Quine escreveu um livro de sucesso há anos e, depois desse primeiro lampejo de sucesso, desaparece de tempos em tempos tentando dar visibilidade aos seus próximos lançamentos.

Strike passa os próximos dias tentando encontrar pistas de Owen Quine. Procura a agente literária, o editor, a amante do escritor, mas não obtém sucesso. Enquanto isso, o mundo literário entra em efervescência quando vem à tona que o último original entregue à editora de Owen, coloca  em situações vexatórias e escatológicas desafetos e amigos do escritor.

Bombix Mori é o título do original e se transforma em uma febre compartilhada em segredo pelo mundo editorial londrino e sofre a propulsão de uma bomba potente quando Owen é encontrado morto, exatamente como descreve em Bombix Mori.

Livro digestivo, romance policial bem amarrado, com personagens delineados satisfatoriamente, em narrativa envolvente. Isso até chegar o momento em que Cormoran Strike sente que encontrou a resposta para todo o enigma. O investigador toma decisões e faz interrogatórios em que só ele  sabe onde quer chegar, por consequência, só ele amarra as pontas do enigma.

Pena. Poderia ser um ótimo momento compartilhado. Cormoran (e a autora)
fez questão do prazer solitário.

De qualquer maneira, J.K.Rowling sabe contar uma história que se passa distante do mundo da magia, mas em que a realidade continua estranha, muito estranha.

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sexta-feira, 31 de março de 2017

MEU NOME É VERMELHO de Orhan Pamuk

Companhia das Letras, 2004, São Paulo, 534 páginas.


Estamos no fim do século XVI, Istambul, em um ateliê de pintores miniaturistas que segue os preceitos do Islã, sendo o mais básico e fundamental deles é que toda a arte figurativa constitui uma afronta.


Porém, a arte retratista veneziana e a pintura renascentista já influencia a uns poucos por sua técnica artística tão diversa do que prega o islamismo. Tio Efêndi é um deles. Usa de sua influência junto ao sultão para sugerir uma obra ilustrada ao estilo estrangeiro. O sultão, então, encomenda ao Tio Efêndi um livro que pretende dar de presente ao doge de Veneza, com pinturas inspiradas na arte otomana usando algumas técnicas venezianas, para com isso demonstrar a superioridade islâmica ao mundo ocidental.

O projeto corre em absoluto segredo com Tio Efêndi coordenando o trabalho de quatro dos mais talentosos miniaturistas: Cegonha, Borboleta, Oliva e Elegante Efêndi.

Dezenove narradores se alternam para compor esse romance histórico permeado pela arte, filosofia e religião e, também, amor, ciúme, rivalidade, inveja, cobiça. Quer mais? Assassinatos e uma a intensa investigação.

O que dizer desse livro? 


É um livraço.

É pouco?
Então, o que dizer de Orhan Pamuk? 


O autor tem pleno domínio da narrativa. 

E isso é um grande elogio. Se não acredita, pergunte a algum amigo escritor e veja o que ele responde. 

Além disso, Orhan Pamuk condena publicamente o genocídio de armênios ocorrido durante a Primeira Guerra Mundial e atua na defesa dos direitos políticos dos curdos. Sua atuação internacional nessas duas questões o levou a ser processado pelo governo turco, em caso que provocou polêmica internacional.

Bom, eu já disse que são dezenove narradores. O que eu não disse é que, entre eles, há o "Eu sou meu cadáver" e "Eu, o Cão" e "Serei chamado Assassino" e, por que não, "Eu, o Diabo", de quem extraio um trecho da página 376 / 377. É um trecho um pouco longo, mas vale a pena:

"Comecemos do começo. Todo o mundo se agarra ao fato de que fiz Eva comer o fruto proibido, mas esquecem como tudo isso começou. Não, não começou tampouco com minha arrogância diante de Alá. Antes de tudo o mais, houve essa história de Ele nos apresentar o homem e querer que nos inclinássemos diante deste, o que encontrou minha legítima e decidida recusa, embora os outros anjos tenham obedecido. Vocês acham correto que, depois de me ter criado do fogo, Ele exija que eu me incline diante do homem, que Ele criou do mais reles barro? Ora, meus irmãos, digam a verdade, em sã consciência! Está bem, sei que vocês já pensaram no assunto mas temem que o que for dito aqui não fique apenas entre nós: Ele vai ouvir tudo e um dia vai lhes pedir explicações. Tudo bem, não me interessa saber por que Ele lhes deu uma consciência assim. Admito, vocês têm por que ter medo, portanto vamos deixar pra lá essa questão do barro e do fogo. mas tem uma coisa de que não me esqueço nunca, sim, uma coisa de que sempre me orgulharei: nunca me inclinei diante do homem.

Ora, é precisamente o que fazem os europeus. De fato, não só eles fazem questão de retratar e de exibir todos os detalhes daqueles grão-senhores, daqueles padres e daqueles ricos mercadores, e até das mulheres deles -- cor dos olhos, textura da pele, contornos dos lábios, efeitos de sombra de um decote, rugas na testa, anéis nos dedos, até os tufos de pêlo que saem das orelhas --, mas ainda por cima colocam essas pessoas no centro de seus quadros, que exigem igual fazem com seus ídolos, como se o homem fosse um objeto de culto e todos devessem se prosternar diante dele! Ora, porventura o homem é tão importante assim para que desenhem todos os seus detalhes, inclusive sua sombra? Se desenhássemos as casas de uma rua de acordo com a falsa percepção do homem, isto é, diminuindo de tamanho à medida que estão mais distantes, não seria usurpar para o homem o centro do mundo, que é o lugar que cabe a Alá? Bem, Ele, o Todo-Poderoso, em sua clarividência, saberá julgar melhor que eu, mas acho que todos compreenderão que é um absurdo me culpar pela ideia de fazer esses retratos, logo a mim que sofro as consequências -- a dor indescritível do exílio, a perda da graça de Alá, de quem eu era o favorito, tornando-me objeto de pragas e injúrias -- da minha recusa original de me inclinar diante do homem. Mais razoável seria fazer como certos mulás e pregadores esclarecidos que me apontam como responsável pelas crianças brincarem com suas partes e as pessoas peidarem."

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segunda-feira, 27 de fevereiro de 2017

O SINEIRO Edgar Wallace

Ediouro,  Rio de Janeiro, 1983, 178 páginas. Edição popular, com introdução de Paulo Mendes Campos.



O escritor e dramaturgo inglês Edgar Wallace viveu 57 anos (faleceu em 1932) e, nesse meio tempo, escreveu 175 livros, 24 peças de teatro, além de publicação de contos policiais em jornais. 



A esses números espantosos, fico sabendo que 160 filmes foram lançados a partir de seus escritos. A tentação em ler um dos quase vinte livros que tenho dele aqui no sebo foi forte. Escolhi O SINEIRO, inicialmente adaptado como peça de teatro alcançando grande sucesso. Edgar Wallace adaptou o texto para romance policial e aí estava eu debruçada nesta edição popular da Ediouro, letra minúscula, papel amarelado pelo tempo.

O SINEIRO é o homem de mil disfarces, capaz de enganar sua própria esposa com seus estratagemas (que dirá os policiais). Forjou sua morte na Austrália, mas não conseguiu ludibriar por muito tempo os atentos detetives da Scotland Yard que amargam o insucesso nas tentativas de capturá-lo. Volta a Londres ignorando o perigo, em busca de vingança pela morte de sua bela irmã Gwenda Milton, suicida. O Sineiro atribui a responsabilidade pelo fato ao ardiloso advogado Messer. 


Messer treme nas bases com a possibilidade de ser objeto de vingança do perigoso Sineiro, mas isso não o impede de continuar como intermediário em roubos milionários e em não dar paz à sua nova e linda secretária, vítima de seu assédio.

O tempo todo da leitura é como se as cenas se passassem na tela mental da minha memória. Já vi esse filme antes? Não sei. Mas todo o clima, descrição de personagens e momentos de tensão se passam em clima de filme noir.

Respondendo à pergunta se já vi esse filme antes, respondo que adoro uma reprise de filme noir...
Resenha de Sandra Abrano
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O impostor Javier Cercas

Biblioteca Azul, Editora Globo, São Paulo, 2015, 464 páginas.

Em 2016, após a leitura de O MOTIVO e O VENTRE DA BALEIA, Javier Cercas se tornou meu escritor predileto e eu estava ansiosa para começar a leitura de O IMPOSTOR, seu último lançamento no Brasil. 

Logo na primeira linha da primeira página Javier Cercas me sai com:


"Eu não queria escrever este livro."

Está certo, se antes eu estava ansiosa continuei a leitura, agora curiosa.
E, no segundo parágrafo:


"Os primeiros parágrafos de um livro são sempre os últimos que eu escrevo. Este livro está concluído. Este é o último parágrafo que escrevo. E, sendo ele o último, agora sei por que eu não queria escrever este livro." 



O motivo alegado pelo autor é o medo. "A única coisa que eu sei agora é que o meu medo era justificado."

Javier Cercas investiga detalhadamente a história de Enric Marco que se dizia sobrevivente dos campos de concentração nazistas, líder sindical, um resistente contra a ditadura de Franco. Em 2005 sua história veio à tona como uma grande farsa, desmascarada pelo historiador Benito Bermejo. 

Em O IMPOSTOR, o narrador inicia uma longa série de entrevistas com Enric Marco, acompanhado por seu filho em idade pré-vestibular que tem a missão de filmar os depoimentos. Enric Marco fornece em uma intensa, verborrágica e infindável falação com justificativas, detalhes, nomes de pessoas. Estas são minuciosamente investigadas e, uma a uma, desmontadas. Pequenos fatos verdadeiros em uma imensa trama mentirosa, construída durante anos por Marco.

E assim a narrativa segue milimetricamente, passo a passo, no desmonte da falácia de Enric Marco. 

Javier Cercas afirma que O IMPOSTOR é um romance sem ficção. Já que a vida de Marco em si é uma grande invenção, Cercas parte em busca da verdade.

A busca pela fama, celebridade (tão em voga nesses tempos contemporâneos) acaba encontrando a pós verdade. Fatos que aparentam ser verdade são mais importante que a verdade? Afinal, a memória individual e coletiva podem ser moldadas impunemente? Para Enric Marco não. O caso de impostura tornou-se conhecido no mundo e Enric Marco passou de herói a um dos maiores impostores dos últimos tempos. 

Javier Cercas, nesse livro, leva muito à sério a série de depoimentos e o posterior desmanche dos fatos para a busca da verdade. Minúcias de acontecimentos, entrevistas com algumas testemunhas, verificação em periódicos, investigação cuidadosa. Detalhes demais para uma leitora em busca de uma narrativa menos minuciosa.

Insisti na leitura por um bom número de páginas. Desisti. Voltei ao livro, inconformada com a minha incapacidade de seguir adiante. Desisti pela segunda vez. Apesar de achar interessante a tese que aos poucos vai se delineando nessa busca dos limites entre a ficção e a verdade, não consegui seguir adiante.

Não costumo abandonar leituras. Mesmo. Sou de uma resistência já provada em livros que outros falharam. Nesse, fui vencida pelos cacos de verdade que à muito custo brilhavam na narrativa.

Não entreguei os pontos definitivamente.
O livro continua ali, no criado-mudo. 

Javier Cercas não abandonou o posto de escritor preferido. Vou atacar em breve OS SOLDADOS DE SALAMINA para desfazer meu fracasso.


Trecho Predileto, página 21.
"Poucos dias depois da explosão do caso, eu tinha lido no diário El Punt (ou em algum serviço de notícias on-line criado pelo diário El Punt) um artigo em que também faziam isso. Intitulava-se 'Mentiras', trazia a assinatura de Sílvia Barroso, e a autora dizia que o caso Marco a surpreendera no momento em que estava lendo o final de um romance meu em que o narrador anuncia a sua decisão de 'mentir sobre tudo, tão somente para contar melhor toda a verdade". Acrescentava que em meus livros eu costuma explorar as fronteiras entre a mentira e verdade e que em alguma ocasião me escutara dizer que, às vezes, 'para se chegar à verdade, é preciso mentir'. Barroso me igualava a Marco? Insinuava que eu também era um embusteiro, um impostor? Felizmente não, pois em seguida ela acrescentava: 'A diferença entre Cercas e Marco é que o romancista tem licença para mentir'."

Resenha de Sandra Abrano


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terça-feira, 24 de janeiro de 2017

A INVASÃO Ricardo Piglia

Iluminuras, São Paulo, 1997,126 páginas.


Não faz muito tempo soube que Ricardo Piglia estava doente.


A notícia da gravidade da doença e suas consequências pra lá de danosas, chegaram para mim um pouco antes da morte do escritor argentino.


Senti tristeza como se ele fosse uma pessoa próxima, um chegado, alguém de quem eu gostasse de receber notícias, acompanhar por onde corriam seus pensamentos.


Eu me preparava para ler algo mais atual, para verificar se ele continuava tão cerebral como em RESPIRAÇÃO ARTIFICIAL ou se havia deixado as emoções se aproximarem de sua escrita, tal como em alguns dos contos de A INVASÃO, o primeiro livro publicado. Do lançamento desse livro de contos à minha leitura se passaram... cinquenta anos!

Quanto às minhas leituras, tenho de admitir a tendência de estar atualizada com o passado. Não poderia ser de outra forma, minha casa cheia de livros antigos, edições fora de catálogo, clássicos em graphia ultrapassada. Tenho um sebo e minha pilha de livros prediletos acompanha a vagarosa manutenção do catálogo. 

Para me proteger da desatualização, acompanho resenhas de lançamentos, vou a encontros e debates literários, perco um tempo no youtube escutando o que os escritores tem a me dizer. Ricardo Piglia me disse muito. Uma das que sempre lembro é a que conta de sua mania de engavetar os originais, deixá-los de lado por um tempo para fazer a revisão depois de um saudável distanciamento. Brincou, dizendo que pensava parar com isso,  teria que ser mais ágil porque, afinal, estava na época com setenta anos.

A notícia da morte de Ricardo Piglia me pegou em meio à leitura de A INVASÃO, seu primeiro livro.


Trecho Predileto, página 63.
"O maior incômodo desta história é ela ser verdadeira. Engana-se quem pensa que é mais fácil contar fatos verídicos do que inventar um enredo, suas relações e suas leis. A realidade, como se sabe, tem uma lógica esquiva; uma lógica que, às vezes, parece impossível de narrar."







Resenha de Sandra Abrano

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segunda-feira, 16 de janeiro de 2017

O NEGOCIANTE DE INÍCIOS DE ROMANCE Matéi Visniec

É Realizações Editora com apoio do Instituto Cultural Romeno, 2015, São Paulo, 384 páginas.

O OBJETIVO DESSE LIVRO? Matéi Visniec é quem conta:


"Que será que nos falta neste mundo para estarmos tão dispostos a começar tudo do início, vezes sem conta, com uma espécie de eterna esperança de que a próxima sequência será melhor, eventualmente mais divertida, mais estimulante? Hollywood entendeu isso há muito tempo e nos filmes que produz, a cada 45 segundos, surge uma nova descarga de adrenalina, sendo toda a narração uma sucessão de inícios excitados.
Resultado de imagem para Mátei VisniecÉ este o PONTO DE PARTIDA de meu romance, em que tento observar a evolução de um tipo de droga social: a DEPENDÊNCIA DA ILUSÃO DO INÍCIO. E por que não escrever, num mundo em que apenas os inícios são sedutores, um romance formado só de inícios?"


Moro nas proximidades da USP e ir à sua Feira de Livros é uma danação econômica anual que cumpro com prazer e resmungos de "ai, quanta gente". Em 2016 procurei o estande da É Realizações atrás de publicações de escritores nacionais. Descobri que esse não era o forte da editora, mas fiquei surpresa com a coleção de dramaturgia com cerca de 17 títulos do romeno Matéi Visniec, além do livro O NEGOCIANTE DE INÍCIOS DE ROMANCE do mesmo autor, que acabei comprando.



O ARGUMENTO

Um escritor, aspirante a tornar-se famoso, conhece Guy Courtois na entrega de um prêmio literário não muito importante. Guy Courtois apresentou-se como representante de uma agência que cria inícios de romance. Entre seus clientes, prêmios Nobel, escritores conceituados, a fina flor da literatura mundial.

O escritor (romeno de nascimento e morador de Paris), não estava interessado nos préstimos de Courtois naquele dia da entrega do prêmio literário. Só mais tarde o procuraria e, a partir daí, se mostraria um escritor de produção incessante, dedicado intensamente à produção literária, aguardando que lhe chegasse às mãos a ansiada frase inicial do livro que o levaria ao sucesso, quem sabe ao prêmio Nobel.


E Matéi Visniec, tal qual Calvino em SE UM VIAJANTE EM NOITE DE INVERNO, começa e não necessariamente termina (e a comparação com Calvino aí termina) a sua copiosa produção. O mais interessante nesse caminho é a discussão a respeito da literatura, da produção literária, da tecnologia e seus recursos digitais auxiliando o escritor a traduzir sentimentos em palavras.


O absurdo toma conta do livro, na minha opinião, por um trecho longo demais. Tivesse o livro mais enxuto de páginas, mais concentrado na prosa, o resultado ganharia em densidade.



Apesar dessa observação negativa, segui sem descanso pelas quase 390 páginas, eu também atrás da frase, aquela frase especial que marcaria o início de um caminho para a glória literária.

De quebra, o delicioso (e triste) trecho que discute a Romênia e sua literatura pouco reconhecida além de suas fronteiras e, talvez por isso mesmo, com tanta necessidade de afirmação estrangeira.

Se o autor se pergunta porque nenhum escritor romeno ganhou um Nobel, nós aqui no Brasil justificamos de várias formas a ausência do laurel. Não estamos e nunca estivemos sequer no páreo. Somos carta fora do baralho.


Literatura romena? Hein?
Literatura brasileira? Hein?

Voltando... O NEGOCIANTE DE INÍCIOS DE ROMANCE é um livro que faz pensar na escrita e em seus processos, faz pensar na insistência obstinada de escritores nunca lidos e em sua produção literária calada por falta de leitores. Por quê mesmo ser um aspirante a escritor?

Trecho Predileto, pagina 42.
"Hoje, a mãe morreu."Você acha mesmo que uma asserção tão simples pode sair da mente de um escritor? Asseguro-lhe que não. Escritor é, por regra, pessoa complicada, dilacerada intimamente, contorcida, cheia de contradições consumida por ambições, muito pouco generosa, se bem que se inflame com a ideia de humanidade.Não, lhe asseguro que Albert Camus nunca teria começado o romance O ESTRANGEIRO com essa frase se não a tivéssemos fornecido nós.[...]"Hoje, a mãe morreu."Que imprevisível, que promissor e convincente início de romance! Um romance curto, como deve se lembrar. Quem é que não leu Camus logo por volta de quinze ou dezesseis anos? Não foi dito, de fato, sobre Camus (com certa maldade, aliás) que é, basicamente, um escritor para alunos de liceu, até um filósofo para alunos de liceu? E quem acha que colou essa etiqueta em Camus? O bando de escritores sofisticados à roda de Sartre, aqueles afetados grafocêntricos, incapazes de dizer uma frase coerente sem a acompanhar de fumos gestuais e ênfase interior. Imagine só quanto sofreram esses impotentes pedantes, com veleidades esquerdistas, ao ver Albert Camus receber o prêmio Nobel com apenas 44 anos."

Página 378.

"-- O que é um romance? Antes de tudo, uma quantidade de tempo. Quando você vê um romance numa livraria, estando atento, pode avaliar rapidamente a quantidade de tempo nele contida. E isso nos dois sentidos: o tempo necessário ao autor para o escrever e, implicitamente, o tempo necessário a você para o ler.[...]-- E há mais uma coisa, uma coisa que ninguém pode avaliar. A saber, durante quanto tempo você será influenciado por um romance após sua leitura. Há romances que o acompanham por toda a vida, que ficam em você, que perduram. Por isso digo que um bom romance é uma vitória sobre o tempo."


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quarta-feira, 14 de dezembro de 2016

REMINISCÊNCIAS Marcelo Nocelli

Editora Reformatório, São Paulo, 2013, 150 páginas.

Estou para ver uma foto de capa tão adequada para representar os contos de Marcelo Nocelli em REMINISCÊNCIAS. Homem de cabelos fartos, grisalhos. Rosto em que as rugas compõem a fisionomia como testemunhas do que ocorreu. O olhar pousado para além da janela; janela com madeiramento desgastado marcada pela ação do tempo. Homem pensativo, boca larga, tensa, vincada, mãos apoiando o queixo em pose ultrapassada, tal como a memória, lembrança do que foi.


Feliz fotografia para representar os dezessete contos. 

Lembrança, saudade, solidão e um tanto de rancor. 

Contos curtos na medida exata para incomodar a memória, essa memória pessoal que todo leitor tem de sobra e os escritores, então... Texto direto, mas carregado de emoção.


Trecho Predileto, página 140.
"Durante os últimos anos da minha vida, ela foi a única companheira. Talvez por isso perdi totalmente a noção de como somos sós no mundo. Minhas dúvidas, alegrias, angústias e tantos outros sentimentos sempre foram confidenciados em nossa intimidade. Minha única ouvinte interessada. Não posso desapontá-la agora. Minha única ligação com o mundo. O que segredar aqui, por mais insano, vergonhoso ou até imoral que seja, chegará aos outros de forma entendível. Ela sempre faz isso." [...]

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segunda-feira, 28 de novembro de 2016

DESNORTEIO Paula Fábrio

Patuá, São Paulo, 2012, 144 páginas.

Esse é um livro para ser relido.

Texto montado em frases curtas, tempo em vai e vem sem ordem cronológica, narrativa fragmentada regida pelas lembranças que parecem não ser de fácil digestão a quem nos conta.

Está certo, descrito assim se corre o risco de afastar o leitor propenso a uma boa leitura, mas que também busca entretenimento. Vou ser sincera, fico preguiçosa ao me deparar com textos que querem quebrar estruturas e padrões de escrita sem colocar os efeitos a serviço do que se quer contar. Eu me senti um pouco mais apreensiva ao perceber nomes de pessoas e locais em "caixa baixa", isto é, minúscula. O que será que Paula Fábrio quis passar com essa quebra de padrão na língua portuguesa?

Não que a leitura de DESNORTEIO seja trabalhosa, apenas demora umas tantas páginas para que as as intensões da autora se encaixem. Zona de conforto nem pensar, o que Paula Fábrio pretende é que o leitor sinta o desnorteio, inclusive nas regras narrativas. Não é assim com a vida? A vida não segue a coerência de uma novela de TV.

Conhecemos aos poucos a família Oliveira. Três irmãos e duas irmãs moradores em uma casa popular em Sorocaba, interior de São Paulo. As irmãs seguem sua vida. Uma delas, a dentuça, se casa com o "Clark Gable", resumido como homem mulherengo e com bigodinho fino. Lembra a outra irmã:

"Com as mãos lentas, a mulher distribui o pão sobre o prato antigo e esse movimento vagaroso é um convite para desviar a atenção e recordar o menino imberbe do trem quando este já era moço e usava bigode fino ao estilo clark gable. Considerou que a irmã tinha feito um bom casamento. Cabelos fartos, olhos amarelos e rosto quadrado. Sim, a maria luísa conseguira um senhor casamento. Pena que foi ter acontecido tudo aquilo. Não gosta nem de pensar."

Benê, Miguel e Dorfo são os três rapazes. Benê, descrito como um Quixote alto e magro. Miguel, um artista que, não se sabe, começou a beber porque não encontrou o sucesso ou, ao primeiro sinal de destaque, encontrou prazeres que o tiraram do rumo. Dorfo não é fácil. Construiu um quartinho isolado da casa e, tendo sempre à mão um porrete, assegura que ninguém o incomode.

Benê e Miguel vendiam bilhetes de loteria para sustentarem as necessidades mais básicas. A miséria rondava-os, o discernimento às vezes lhes fazia falta. Mendigos. A casa em Sorocaba em ruínas era o refúgio.

As irmãs olhavam, se desesperavam, e agiram para internar Benê detido por assediar mulheres.

Já disse antes em alguma outra resenha e aqui reitero que tenho profunda simpatia por escritores que tratam seus personagens com afeto. Não os poupam da vida que, na regra, não é fácil, mas os personagens estão sob as palavras de quem tem carinho por eles.

Paula Fábrio é uma dessas escritoras. A dureza dos fatos, os sentimentos contraditórios que se apresentam frente à doença, às fragilidades olhadas de frente, sem dó, mas com afeto. Como seria mais fácil descrever situações em que se apresentem heróis ou cafajestes, crápulas masculinos e femininos, colocar a maldade regendo os acontecimentos.

Paula Fábrio consegue o feito de dirigir o olhar do leitor aos três homens, mendigos. Faz com que acenemos de volta ao cumprimento de um deles.

O mistério que Paula Fábrio coloca ao leitor é insolúvel e tocante.

Trecho Predileto, página 53
"Dez horas. Quarta de cinzas. 1985.

O café está servido. Se pudesse, carminha adoçaria também as palavras.

A senhora de cabeleira branca sorve o primeiro gole e observa. Observa como o tempo também passou para a filha. E disfarça.
Uma mãe deve ser prudente, deixar os filhos envelhecer por si mesmos. Mas não havia perigo, carminha não estava a ler seu rosto. Outras apreensões pesavam cada sílaba da notícia que lhe ocorrera.

-- Vó Carmela acaba de morrer.

Respiraram silêncio. Dois, três minutos.

-- Ontem, pela última vez balançou os bracinhos miúdos, enquanto eu dizia 'Vó Carmem, hoje é terça-feira gorda".

A saudade começou nesse instante. mas ninguém percebeu.

-- Fazia vista grossa pra gente ir ao baile. 

Gaiata, aproveitou até o último minuto. Hora de comer e beber. E olha que vem gentarada.

teresa foi vestir a mãe para o último folguedo, a fim de que Carmela estivesse livre dos vestígios do penhoar rasgado ou para que não se colocasse só de anáguas, como caberia a um defundo folião fazer sua derradeira aparição pública.

Quase um bloco carnavalesco. Esse seria o retrato fiel do enterro da mãe Oliveira. Mas não se usa fotografar passamentos. Mesmo quando o morto insiste em sorrir e dezenas de pessoas concorram para se despedir. Popularidades da mendicância. Como bem cabe ao espírito de Carmela, a peregrinar pelas ruas, catando lixo e acenando para cada um que lhe cruze o caminho.

Ausência. Só Dôrfo. Trancado no cubículo.

Bené e Miguel seguiram o caixão até que a terra cobrisse por completo. Miguel escondeu o rosto entre as mãos.

Bené comentou que a mãe havia sido enterrada na alameda x, número y, do cemitério da saudade, e que ele não haveria de esquecer nunca, porque a localização era formidável, bem ao lado dos despojos das famílias de elvis e elis.

E lá se foram todos comer e beber o morto. Todos não. Exceto Bené e Miguel. Não se convidam os loucos, nem os poetas."

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quinta-feira, 17 de novembro de 2016

O VENTRE DA BALEIA de Javier Cercas

Editora Francis, 302 páginas, 1997

Trecho Predileto da amiga Ângela Pontual, do livro que também é um dos meus preferidos do ano.


Este é o segundo livro que leio de Javier Cercas, mas sem dúvida alguma é uma obra prima do autor.


Outro livro de Javier Cercas com Trecho Predileto publicado no blog, é O MOTIVO.


O livro conta a história de Tomás, um professor universitário que está casado há cinco anos com Luisa, sua colega de profissão na mesma universidade. Ela está no início de uma gravidez desejada, mas não planejada com ele. O encontro casual de Tomás com uma antiga paixão de adolescência, Claudia, quando Luisa está em um congresso fora da cidade, é o início do turbilhão em que o personagem é jogado e que só sai na última página do livro, para olhar para trás e contar aos leitores.


Tomás e Cláudia acabam na cama, após vários drinques, e Tomás sente a velha paixão reacender. Ela está separada do marido, com um filho de 2 anos, e conta que o pai da criança foi embora quando estava grávida. Quando Luisa retorna do congresso percebe que algo mudou; logo ele acaba contando do encontro e ela vai embora. Agora é Tomás quem abandona a esposa grávida.

Com o desaparecimento inexplicável de Claudia, Tomás se dedica aos afazeres da universidade, que abre um concurso para uma vaga que ele cobiça.

Entre as confusões da universidade e de sua vida pessoal, as conversas com o amigo, colega e mentor, professor Marcelo, renomado pesquisador de literatura na universidade, representam uma importante discussão sobre literatura, arte e, claro, a nossa vida.

Há inúmeros trechos que eu poderia citar, mas aqui vai um dos prediletos:

Trecho Predileto, página 214
[...] A felicidade não cobra motivo: ninguém se pergunta por que é feliz; simplesmente é, e basta. Com a desgraça ocorre o contrário: sempre buscamos motivos que a justifiquem, como se a felicidade fosse o nosso destino natural, aquilo que nos é devido, e a desgraça, um desvio perverso cujas causas nos esforçamos em vão para desencavar.

Marcelo diz que o passado e o futuro não existem, que o passado é apenas memória e o futuro, apenas especulação. Talvez esteja certo, mas talvez também seja correto dizer que nem mesmo o presente é uma entidade própria, objetiva, não só por ser inapreensível, apenas uma lâmina infinitamente efêmera que, como no caso da felicidade, basta mencionar para que desapareça (basta que você mencione o presente para que este automaticamente se transforme em passado, do mesmo modo que ninguém pode dizer que é feliz sem deixar automaticamente de sê-lo, pois a primeira condição da felicidade é a ausência da consciência da felicidade), mas também porque o presente só existe quando alguém se dá conta dele; quer dizer: quando alguém o inventa. Por isso, viver consiste em inventar a vida a cada instante, contá-la a si próprio. Por isso, a realidade não é outra coisa senão o relato que alguém está fazendo, e, se o narrador desaparece, a realidade também desaparecerá com ele. O mundo depende desse narrador. A realidade existe porque alguém a conta. Inventamos constantemente o presente; e mais ainda o passado. Recordar é inventar: disse no começo e já repeti, mas a verdade é que , talvez por só sermos capazes de realmente conhecer o que pensamos quando o fixamos em palavras, só o compreendi com clareza à medida que escrevia estas páginas, à medida que vou finalizando esta crônica que, tal como o mundo, só é real porque a conto; também é verdade que, de algum modo, intimamente, todos sabemos que só se investiga o passado com a intenção oculta de modificá-lo.

[...] 

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quinta-feira, 10 de novembro de 2016

Mais forte que a morte Ruth Rendell


Rocco, Rio de Janeiro, 2005, 376 páginas.

Assisti ao filme de Almodóvar, CARNE TRÊMULA, no final da década de 1990. Na época, o enredo me chamou a atenção o suficiente para pesquisar se era um tema original desenvolvido por Almodóvar (o que não parecia).

Assim descobri Ruth Rendell, autora do livro adaptado pelo diretor espanhol em filme que não cabia em si de sensualidade, culpa, redenção.


O interesse não resultou em leitura e só há pouco "caiu" em minhas mãos diretamente do sebo o MAIS FORTE QUE A MORTE da "Rainha do Crime", título que a escritora critica por considerar sexista e sarcástico.

Minha simpatia pela autora só aumentou ao saber que seus primeiros seis romances foram rejeitados pelas editoras. 

Seu sétimo livro foi a estréia do inspetor Reginald Wesford e, a partir daí, o sucesso esteve ao seu lado nos mais de cinquenta lançamentos que se seguiram.

Usou o pseudônimo de Bárbara Vine para explorar uma linha mais psicológica. Seus fãs se dividiram entre os que amaram e os que detestaram a novidade, mas independente dessa discussão, seus livros continuaram na lista de sucessos.

Ruth Rendell escreveu vários romances em que se apoiava na psicologia patológica. 

MAIS FORTE QUE A MORTE é um desses títulos, ADAM AND EVE AND PINCH ME no original, lançado em 2001.

Se o leitor tem por hábito escolher um personagem para um envolvimento mais próximo, vai encontrar dificuldade nesse livro. 

Ninguém é exatamente bom ou incorreto demais. Mesmo um cafajeste típico como Jock Lewis tinha seus momentos de bondade ou maldades que resultavam no bem.

Jock não gostava de responsabilidades e tinha predileção por envolver-se com mulheres bem sucedidas e que não se incomodavam em proporcionar-lhe uma boa vida. Casado, providenciou que a sua esposa recebesse uma carta comunicando seu falecimento em um acidente de trem da ferrovia Great Western. Sua namorada na época, Minty, também recebeu o mesmo tipo de correspondência (sem timbre ou sequer um carimbo) comunicando a morte de Jock. Em sã consciência ninguém poderia acreditar naquele comunicado por não seguir qualquer regra institucional. Zilla, a esposa de Jock, não acreditou, mas soube interpretar a situação como uma "liberação" de Jock para que ela continuasse a viver com os dois filhos sem esperar ajuda ou incômodo do marido.

Zilla é uma linda mulher completamente falida e sem perspectiva, isso até ser procurada pelo amigo da adolescência, James Melcombe-Smith, 30 anos, rico e bonito, membro Conservador do Parlamento inglês. Gay não assumido, acuado por ameaças de punições pelos caciques do partido conservador, James encontrou saída propondo casamento a Zilla, uma vida confortável, uma polpuda mesada na forma de crédito ilimitado em dois cartões.

O que mais Zilla poderia querer? Bom, um dos desejos era que o marido continuasse sua morte conveniente porque o casamento de Zilla e James ocorreu sem o necessário divórcio.

Jock não estava interessado na vida de Zilla, preocupado em manter-se em relacionamentos com mulheres independentes e com alto rendimento. Seu deslize foi, em um período de pouca sorte com as mulheres bem sucedidas, relacionar-se com Minty, uma funcionária de lavanderia em um bairro afastado e nada charmoso que, ao ser comunicada da "morte" do namorado começou a ter estranhas visões. O fantasma de Jock não mais a deixaria em paz.

Esse é o pano de fundo de MAIS FORTE QUE A MORTE. Muitos outros personagens são apresentados e bem caracterizados na narrativa. Um livro eficiente no quesito entretenimento, mas no geral pouco apaixonante.

Trecho Predileto, página 7.
"Minty sabia que um fantasma estava sentado na sua cadeira porque estava realmente amedrontada. Se fosse apenas alguma coisa que estivesse imaginando, não se sentiria tão assustada. Não se fica apavorado com visões que são simplesmente fruto de nossa imaginação.

Era início da noite, mas, sendo inverno, estava muito escuro. Ela acabara de chegar a casa vindo do trabalho, entrara pela porta da frente e acendera a luz do saguão. A porta da sala estava aberta e o fantasma estava sentado numa cadeira de espaldar reto no meio do aposento, com as costas viradas para ela. Pusera a cadeira ali para alcançar o teto e trocar uma lâmpada antes de sair de manhã para o trabalho e esquecera de colocá-la no lugar. Tapando firmemente a boca com ambas as mãos para conter o grito, ela de um passo à frente e pensou: Meu Deus, o que farei se ele se virar? Os fantasmas nas histórias são cinzentos como as pessoas na televisão em preto e branco, ou então são transparentes, mas esse tinha cabelos castanho-escuros, curtos, pescoço marrom e blusão de couro preto. Minty não precisou ver seu rosto para saber que era seu falecido noivo Jock."

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segunda-feira, 24 de outubro de 2016

AS BRASAS Sándor Márai

Companhia das Letras, São Paulo, 172 páginas.

SÁNDOR MÁRAI nasceu em 1900 na Hungria, em território atual da Eslováquia. Optou por abandonar a vida em 1989, em San Diego, EUA. Entre um fato e outro escreveu (entre outros)

AS BRASAS, O LEGADO DE ESZTER, VEREDICTO EM CANUDOS (que, pasmem!, teve inspiração em OS SERTÕES de Euclides da Cunha), DIVÓRCIO EM BUDA, REBELDES, CONFISSÕES DE UM BURGUÊS, DE VERDADE, A MULHER CERTA
todos esses com edições em português.

 

O colégio em que Henrik e Konrad se conheceram ficava nos arredores de Viena. Henrik era filho de mãe francesa e pai húngaro. De família abastada, em quase tudo era diferente de Konrad, principalmente na riqueza. Isso não os impediu de prosseguirem com a amizade até a idade adulta, mesmo após o casamento de Henrik com Kriztina. Os amigos moravam próximos e os três jantavam juntos pelo menos duas vezes por semana. Depois, sem qualquer explicação, Konrad foi embora. Reapareceu quarenta e um anos depois para o acerto de contas entre os amigos.
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Sándor Márai

Nesse livro de menos de duzentas páginas encontrei vários trechos prediletos. Selecionei alguns:

Trecho Predileto
Página 34   "A educação que trazia no sangue, que lhe vinha das florestas virgens, de Paris, da suave sensibilidade de sua mãe, impunha-lhe não falar do que o afligia, mas suportar tudo em silêncio. Aprendera que a coisa mais sábia era se calar. Mas não podia viver sem afeto: isso também fazia parte de sua herança. Talvez fosse a mãe francesa que tivesse lhe transmitido esse desejo ardente de confiar os próprios sentimentos a alguém. Na família do pai não se falava dessas coisas. Ele precisava de alguém em quem despesar seu afeto: Nini ou Konrad. Então a febre cedia, a tosse passava, seu rosto pálido e magro ficava rosado sob o estímulo da confiança e do entusiasmo. Os dois garotos estavam numa idade em que o sexo ainda não tem um caráter bem definido: é como se ainda não tivessem feito sua escolha. A cada quinze dias, o barbeiro raspava a zero os suaves cabelos louros de Henrik, esses cabelos que ele detestava porque tinha a impressão de que lhe conferiam um aspecto feminino. Konrad era mais viril, mais pacato também. A adolescência se abria diante deles e a enfrentaram sem sentir nenhum temor, porque já não estavam sozinhos."


Página 39   "Não é nada contra você", disse o amigo com muita seriedade: "Só queria que se desse conta com os próprios olhos de como são as coisas. Quando aquele bávaro pulou em cina de mim com a espada desembainhada, fazendo aqueles floreios qual um possesso e muito bem-humorado, como se correr o risco de ficar estropiado para satisfazer a própria vaidade fosse uma linda brincadeira, me veio ao espírito o rosto de minha mãe, que vai ao mercado toda manhã para evitar que a cozinheira a engane embolsando dois centavos, porque no final do ano os dois centavos terão somado cinco florins que ela poderá enfiar num envelope para me mandar... Naquele momento eu realmente poderia ter matado o bávaro que queria me ferir por pura bazófia, sem perceber que cada arranhão que me desse era um pecado mortal contra essas duas pessoas que, aqui na Galícia, tinha sacrificado em silêncio suas vidas por mim. Toda vez que no seu castelo dou uma gorjeta a um mordomo, gasto alguma coisa da vida deles. É muito difícil viver assim", concluiu enrubescendo."


Página 97   "Você não pode entender porque nunca foi um caçador. Para você isso também representava apenas uma obrigação, uma das obrigações de um fidalgo, parte de seu ofício, como a equitação ou a vida social. Você ia caçar, sim, mas com jeito de quem se dobra a uma convenção social. Ia caçar com o desprezo estampado no rosto. E até a arma você segurava com displicência, como uma bengala de passeio. Não sendo caçador, não conhecia essa estranha paixão, a mais secreta da mente masculina, independente de qualquer posição social e qualquer cultura, enraizada e profunda como o fogo nas entranhas da terra. Essa paixão é o desejo de matar. Somos homens, matar é um imperativo de nossa vida. Não podemos ser diferentes... O homem mata para defender alguma coisa, mata para conseguir alguma coisa, mata para se vingar de alguma coisa. Você está rindo com ar de desprezo? Você era um artista: será que esses instintos baixos e brutais não se atenuaram em sua alma delicada?... Acha que nunca matou nada que estivesse vivo? Não tenha tanta certeza assim", diz com ar severo."






sábado, 24 de setembro de 2016

O EXÉRCITO DE CAVALARIA Isaac Bábel

Cosac Naify, 2015, 2ª edição, São Paulo, 248 páginas

Fui para a Rússia e não me perguntem os motivos (a extensão do texto hoje em dia é critério para a possibilidade da leitura, então economizemos).

Além da minha filha, tive a companhia d'O EXÉRCITO DE CAVALARIA, de Isaac Bábel.

A primeira vez que ouvi falar de Bábel foi na leitura de 2666 (Bolaño) e o reencontrei em MEMÓRIAS IMORAIS, de Eisenstein. 


Bom, com duas indicações como essas, lá fui buscar mais referências a respeito do escritor.
Com Einsenstein.
Resultado de imagem para O EXÉRCITO DE CAVALARIAAos vinte e um anos, em 1915, o ucraniano descendente de judeus mudou-se para São Petersburgo após terminar os estudos em administração e comércio. Na época, São Petersburgo era a capital e cidade mais efervescente do império russo. Nesse mesmo ano conheceu Máximo Gorki que publicaria um de seus contos na revista Летопись e de quem se tornaria protegido e era da natureza de Gorki apadrinhar jovens escritores. Foi o escritor engajado quem o aconselhou a buscar experiências de vida, indicação seguida à risca por Bábel.

Lutou na Primeira Guerra Mundial, trabalhou como intérprete no órgão de repressão aos movimentos contrarrevolucionários, foi correspondente durante a guerra russo polonesa no Exército de Cavalaria.

Nesse período de intensos combates com o Exército Branco (contrários à tomada do poder pelos bolcheviques) manteve um diário que serviria de base para O EXÉRCITO DE CAVALARIA. 

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Com Eisenstein.

Falar em cavalaria, na Rússia, era o mesmo que referir-se diretamente aos cossacos. Em trecho do Diário de 1920, indicado na apresentação à edição, por Aurora Bernardini e Homero de Andrade, escreve Bábel:

"Que tipo de pessoa é o nosso cossaco? 
[...] gosto por regatear objetos, temeridade, espírito profissional, revolucionário, crueldade bestial".
Russian_cavalry

E exatamente assim são os personagens em sua sequência de contos tendo como narrador Kirill Vassílievitch. Apesar de curtas, as narrativas apresentam a brutalidade, a desumanidade, alguns momentos de solidariedade e aproximação, para logo sobrevir a incoerência, os sentimentos à flor da pele presentes em todas as guerras.


Bábel descrevia a brutalidade como fato da vida. Sentimentos de dedicação, abnegação ou amor eram mais naturalmente dirigidos aos cavalos da Cavalaria do que a homens e mulheres famintos, acuados pela situação de violência.

Bábel foi um revolucionário de corpo e alma, literalmente. E isso, para ele, não era sinônimo de aceitação e obediência às políticas do partido. O escritor chegou a ser denunciado publicamente por baixa produtividade, frente à imposição do formalismo russo aos intelectuais. Observou, com ironia, que estava se tornando "um mestre em um novo gênero literário, o gênero do silêncio".

Em 1939 Isaac Bábel foi sequestrado, encarcerado e morto provavelmente em 1941.

Ao fim da leitura de CAVALARIA VERMELHA e de conhecer alguns flashes da vida de Bábel, eu me vejo duplamente impressionada: pela sequência de contos da Cavalaria Vermelha e pela vida cheia de propósito do escritor. Vida e escrita intensas, personagens inspirados em pessoas corriqueiras, mulheres desesperadas, solitárias, empobrecidas e sem acesso ao mínimo, homens embrutecidos, cavaleiros, soldados, velhos e crianças. Gente comum em um período de exceção, retratados de maneira direta, em um autêntico realismo.

E essa foi a companhia literária em terras russas. Tudo bem, reconheço que não foi uma companhia lá muito leve ou alegre, mas a viagem foi intensa em vários sentidos.

Trecho Predileto:
"E, ao ver aquela mulher intacta e a indescritível Rússia que a rodeava, e os campos dos camponeses sem uma só espiga, e as moças ultrajadas, os muitos camaradas que vão para o front e os poucos que voltam, me deu vontade de pular do vagão para dar fim na minha vida, ou na dela. Mas os cossacos ficaram com pena de mim e disseram:
-- Passa fogo nela.

E, apanhando minha fiel arma na parede, varri aquela vergonha da face da terra trabalhadora e da República."
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Isaac Babel, Odessa.

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