segunda-feira, 16 de outubro de 2017

POTOSÍ 1600 de Ramón Rocha Monroy

Alfaguara, 2002, La Paz - Bolívia, 218 páginas.
Trecho Predileto de POTOSÍ 1600 de Ramón Rocha Monroy, por Sandra Abrano

Passei alguns dias na Bolívia, principalmente viajando pela Chiquitânia. Fui a essa região para conhecer as missões jesuíticas bolivianas, a maioria delas bem preservadas e com uma arquitetura ímpar. A viagem se estendeu à Santa Cruz, Cochabamba e Oruro.

San José de Chiquitos - Bolívia


Detalhes da missão jesuítica de San Javier - Bolívia.













Em país de língua espanhola ou portuguesa, costumo escolher um livro local para me acompanhar na viagem e, por assim dizer, apresentar o povo, o pensamento ou a história da região. 

Foi assim no Peru, em que tive a companhia de ABRIL ROJO de Santiago Roncagliolo (até hoje um dos meus livros favoritos) e de Vargas Llosa, em O FALADOR. No Chile, escolhi HALCONES DE LA NOCHE de Roberto Ampuero e, na Argentina, reli RESPIRAÇÃO ARTIFICIAL de Ricardo Piglia.

Pelas missões jesuíticas na Bolívia, quem me acompanhou foi EL PEABIRÚ CHIQUITANO, livro que relata o trecho boliviano do célebre caminho pré-colombiano que cobria a América Latina, passando, inclusive, por terras brasileiras, chegando a São Paulo, Paraná, Santa Catarina...


No restante da viagem escolhi POTOSÍ 1600, de RAMÓN ROCHA MONROY, escritor nascido em Cochabamba e por várias vezes premiado. Seu livro EL RUN RUN DE LA CAVALERA foi incluído na prestigiada lista das 15 novelas fundamentais da Bolívia, criada pelo Ministério da Cultura em parceria com intelectuais e instituições culturais.

Plural Livros editora e livraria, em Cochabamba, local em que comprei alguns livros de escritores bolivianos.




o enredo de Potosí 1600

Leonor vive há tanto tempo em Potosí, que mal comenta a respeito de seu país de origem, a Espanha. Nessas paragens de altitude e temperatura cruéis, Leonor enterrou seis filhos pequenos. Seu marido, Francisco Flores, é mais um tomado pelo flagelo de Potosi, a cobiça. A ele

"no ofendia la muerte temprana de sus hijos anteriores con tal de seguir recibiendo la dadiva mineral del Cerro Rico".




a prata de Potosí

Leonor e sua sempre amiga Maruja, elaboram ricos pratos com os ingredientes da região, enquanto conversam interminavelmente a respeito de todos os assuntos e vidas locais.

Grávida mais uma vez, Leonor faz promessa a São Nicolau, protetor das parturientes, para que seu filho nasça forte e resista aos rigores da tão exigente Potosí. E assim nasce o primeiro criollo (filho de espanhóis) em Potosí, Nicolau Flores é seu nome, dado em homenagem ao santo que o protege.

Maruja e outras 38 esposas de azogueros seguem o mesmo caminho e, como Leonor, todas colocam Nicolau como primeiro nome de seus filhos. Os 40 Nicolases são a fina flor de Potosí, em eterna rusga com os herdeiros bascos, igualmente poderosos na estrutura da extração da prata de Cerro Rico. Mas sejam espanhóis ou bascos, todos enriquecem às custas dos povos originários que trabalham nas duríssimas condições das minas de Cerro Rico.

Os 40 Nicolases já são jovens adultos quando Ñatita (a morte) assim como Nossa Senhora da Candelária e outros santos passam a ser vistos em Potosí. A presença dos santos coincide com a chegada à cidade de uma trupe de comediantes andarilhos.

Espanhóis, bascos, nativos, negros, religiosos, prostitutas de diversas nacionalidades, todos atraídos pela cidade mais rica do mundo na época, ao ponto de suas ruas serem calçadas com lingotes de prata em dias de festa.

Quer lugar melhor para que os sete pecados capitais andem livres por seus caminhos sob o olhar complacente e vitorioso de Ñatita?

Ramón Rocha Monroy consegue, nesse romance histórico, apresentar o cotidiano, as disputas, a opulência e a vida libertina, com conhecimento e humor. Inspirado nas crônicas de Bartolomé Arzáns de Orsúa y Vela, relata o nascimento do primeiro criollo em terras de Potosí.

Trecho Predileto, página 63
Al Viejo lo envanecían las octavillas y décimas dedicadas al Cerro Rico, que agradecía puesto de pie y muy ceremonioso, para regocijo de la Ñatita. Gustaba muy en especial de las enumeraciones sobre la infinita carga de barras e piñas de plata que iban a lomo de carneros de la tierra rumbo al puerto de Arica, o de contrabando al puerto de Buenos Aires para beneficio de marinos ingleses que pagaban mejor; pero disfrutaba también del regocijo de indios e mestizos que soplaban flautas de caña de toda forma y tamaño,  y tambores de cuero crudo y curiosas versiones de la vilguela y el rabel y cuantos instrumentos de cuerda habían traído consigo los españoles. Cantaba un estribillo interminable con el que indios y mestizos remataban sus coplas picarescas, y con su voz ronca y aguardentosa repetía: Caymari vida, esto sí es vida".
Trecho Predileto de POTOSÍ 1600 de Ramón Rocha Monroy, por Sandra Abrano

sábado, 14 de outubro de 2017

A carta esférica de Arturo Perez-Reverte

Planeta DeAgostini, 2003, São Paulo, 530 páginas.

Trecho Predileto de A CARTA ESFÉRICA de Arturo Pérez-Reverte, por Sandra Abrano

Bem que tentei e segui até pra lá das duzentas páginas, empolgada pelo ritmo de aventura das primeiras cem. 

Não deu. As informações técnicas, trechos desinteressantes, sentimentos forçados, mistérios arrastados me fizeram naufragar. Não é por isso que faltou Trecho Predileto, aliás, marquei mais de um. Mas o conjunto...

Trecho Predileto, página 29
"Porque não há livros sobre faróis e perigos e sinais para navegar terra adentro. Não há roteiros específicos, cartas atualizadas, linhas de perigo em metros ou em braças, alinhamentos a esse ou aquele cabo, balizas encarnadas, verdes ou amarelas, nem regulamentos de navegação, nem horizontes limpos para calcular uma reta de altura. Em terra sempre se navega por estimativa, às cegas, e você só pode perceber os arrecifes quando os ouve rangendo a um cabo de sua proa e vê clarear a escuridão na mancha branca do mar que quebra nas pedras na superfície da água. Ou quando você escuta a pedra inesperada -- todos os marinheiros sabem que existe uma pedra com seu nome espreitando-os em algum lugar --, a rocha assassina, arranhar o casco com um chiado que faz estremecer as anteparas, nesse momento terrível em que qualquer homem no comando de um barco prefere estar morto."
Trecho Predileto de A CARTA ESFÉRICA de Arturo Pérez-Reverte, por Sandra Abrano

sábado, 30 de setembro de 2017

ADEUS, PRINCESA Clara Pinto Correia

Rocco, 2001, Rio de Janeiro, 228 páginas.

Trecho Predileto de ADEUS, PRINCESA de Clara Pinto Correia, por Sandra Abrano

O fato de trabalhar em um sebo amplifica a sensação de que nunca vou chegar ao menos no meio da minha lista de livros para leitura. A lista cresce em progressão geométrica e a minha capacidade de leitura, bem, essa nem em progressão aritmética. A seleção é ampla: clássicos, contemporâneos nacionais, policiais, históricos são a base do meu interesse, mas não só.

Há tempos ADEUS, MINHA PRINCESA pisca para mim a cada limpeza de títulos na estante. Autoria portuguesa, passou a frente de tantos outros interessantes escritores da mesma nacionalidade. Admito que o número de páginas razoável foi um dos critérios, afinal, sou uma pessoa prática.

"Nunca pensei que fosse tão bom estar contigo"

foi a frase-chave para atar Miló (alentejana de 18 anos) ao mecânico alemão de 25 anos, Helmut, em serviço na base aérea da NATO no Alentejo. No mais, Helmut desprezava Mitó sem piedade. Dela sempre se despedia com ironia, impregnada na frase "adeus, princesa".

Auf Wierdersehn, Prinzessim

Bom, Helmut não deixou saudades aos amigos e parentes de Mitó quando foi encontrado morto, com a cabeça atada em seu próprio casaco no escapamento do carro. Mitó confessou o crime, mas ninguém acreditou  nessa versão: franzina, frágil física e emocionalmente, não teria forças para cometer o assassinato.

O período de férias e a falta de notícias quentes foi o que levou o editor da revista Atualidade, de Lisboa, a enviar o estagiário Joaquim Peixoto e o fotógrafo Sebastião Curto ao Alentejo rural, em busca de notícias a respeito do mecânico alemão.

A timidez e a falta de jeito do estagiário Joaquim Peixoto se depara com os moradores típicos do interior de Portugal, seus conflitos e interesses políticos, econômicos e sociais. Recebem com cordialidade ao estagiário e seu experiente fotógrafo, na esperança de verem seus problemas estampados nos meios de comunicação lisboeta. A eles aflige a falta de perspectiva, iniciativa e as atitudes dos jovens da região, sendo Mitó uma de suas típicas representantes.

CLARA PINTO CORREIA usa o assassinato como mote para contar as dificuldades que estão estabelecidas nessa região, amplificando, assim, o interesse pelo livro.

Os editores optaram por manter a sonoridade original do texto português, o que pode causar algum desconforto no início da leitura, mas logo isso torna-se um problema ultrapassado, a não ser por algumas enigmáticas expressões ou ditos populares (poucos) em que o contexto se encarrega de esclarecer.

Prazer na leitura e reflexão, é o que alcança nesse livro, a escritora Clara Pinto Correia. Não é pouco!

E aqui, o link com entrevista com a autora no programa LER MAIS, LER MELHOR.
https://youtu.be/FPzVDfOiU9k
https://www.youtube.com/watch?v=FPzVDfOiU9k
Trecho Predileto de ADEUS, PRINCESA de Clara Pinto Correia, por Sandra Abrano








sábado, 19 de agosto de 2017

CRÔNICA DA CASA ASSASSINADA de Lúcio Cardoso

Editora Record, 1979, Rio de Janeiro, 536 páginas.

Trecho Predileto de CRÔNICA DA CASA ASSASSINADA de Lúcio Cardoso, por Sandra Abrano


Na pilha de livros que quero ler, coloquei os escritores brasileiros como prioritários.


LÚCIO CARDOSO estava em minha lista há tempos. Bom, a fila andou e chegou a vez de CRÔNICA DA CASA ASSASSINADA.


Densidade é que não falta ao livro. 


E personagens carismáticos, alguns são sombrios outros estão submersos em mágoa. Técnica de escrita primorosa, registro de uma época e de uma classe social (a tal decadência de quem algum dia foi).

Sensação de sufocamento, afogamento, little death too, prazer e falta de ar, ai, quantas sensações doloridas em uma única leitura.

Diários, cartas, confissões, depoimentos, narrativas multiplicam as vozes que contam do amor, traição, mentiras, adultério, incesto e decadência, muita decadência.

Há limite para o amor e para a dor?


Trecho Predileto? Vários. Por ora, o trecho da p. 26:
Sem pressa, com a mesma timidez de quem desobedece ditames de uma lei oculta, inclinei-me e levantei a ponta do lençol. Foi a primeira vez que vi o rosto de um cadáver, e aquilo deu-me uma sensação estranha como se uma música longínqua, em acordes muito finos, vibrasse em meu espírito. Ah, seria impossível expressão humana modificar-se com maior rapidez: nela, de linhas tão suaves e perfeitas, tudo havia sido vincado com violência, desde os cílios alongados, um tanto excessivamente, até a testa branca, larga demais, e a curva acentuada das asas do nariz, positivando um aspecto inesperado de semita. E em torno deste rosto, a rigidez estabelecera uma aura intransponível. 

Bem se via que a morte não era uma brincadeira, 
que o ser estabelecido originalmente, 
e toscamente modelado em barro pelas mãos de Deus, 
ali irrompia de todos os disfarces, para se instalar onipotente em sua essência mais verídica. 

Bem se via também que tudo se achava definitivamente dito entre nós. Inúteis as palavras que haviam sobrado, os afagos que não haviam sido feitos, as flores com que ainda pudéssemos adorná-la. Libertada, repousava em sua pureza final. Ah, e inútil também tudo o que não fosse fúria e submissão. Sem resposta, como se nós, criaturas, nada mais merecêssemos senão o luta e a injustiça, tudo terminava ali. E o que existira não passara de um sonho, de uma magnífica e passageira ilusão dos meus sentidos. Nada conseguiria mais romper o duro peso que se acumulava sobre meu coração, e diante daquela ruína, já tocada pela corrupção, eu custava a reconhecer aquela que fora o objeto do meu amor, e nenhuma lágrima, nem mesmo de piedade, subia-me aos olhos.

Tão sem pressa quanto suspendera a ponta do lençol, inclinei-me e beijei o rosto daquela mulher -- como já o fizera tantas e tantas vezes --, mas sentindo que desta vez era inútil e que eu já não a conhecia mais.
Sandra Abrano sobre CRÔNICA DA CASA ASSASSINADA de Lúcio Cardoso.
 

 





Ainda A PRIMEIRA HISTÓRIA DO MUNDO de Alberto Mussa PARTE II


Trecho Predileto de A PRIMEIRA HISTÓRIA DO MUNDO de Alberto Mussa, por Sandra Abrano

No final do mês, 
novo encontro do pessoal do Sarau.

Desta vez será em uma rua no final da avenida Celso Garcia, casa de um dos integrantes desse simpático grupo que a cada mês, mês e meio, se encontra para discutir um tema, um tanto de textos que tenha a ver com as leituras ou com o que pensa (ou incomoda) o anfitrião da vez.

O grupo é "fechado", isto é, os encontros são sempre na residência de um dos integrantes (nunca em local público como bares, bibliotecas ou centros de cultura) e uma das partes boas é a conversa inicial entre comidas e bebidas que cada um leva como contribuição. Em determinado momento, depois de muita conversa, os textos começam a ser lidos e o ambiente fica concentrado, no ritmo da leitura e pensamentos.

E foi de um dos integrantes desse grupo que peguei emprestado A PRIMEIRA HISTÓRIA DO MUNDO de Alberto Mussa, do qual já falei aqui no Trecho Predileto. 






Durante a leitura de um livro não faço anotações organizadas, são indicações de páginas, informações que julgo fundamentais e alguns nomes de personagens quando é o caso. Acabando a leitura, retomo esse "mapa" e organizo o pensamento. Daí é passar para a tela as impressões pessoais a respeito do livro. Essa é a forma que encontrei para reter na memória as sensações da leitura, essa coisa diluída, etérea e que rapidamente vai embora tal como neblina em dia de vento: sem deixar rastros.


No próximo Sarau vou devolver A PRIMEIRA HISTÓRIA DO MUNDO ao seu legítimo proprietário e decidi rever algumas páginas em que achei o texto particularmente interessante (nesse livro foram muitas). Com o trecho a seguir, fiquei particularmente pensativa. Tomara que ele provoque outras pessoas. Estamos em uma boa época pra isso.                     
Trecho Predileto de A PRIMEIRA HISTÓRIA DO MUNDO de Alberto Mussa, por Sandra Abrano



Mais um Trecho Predileto, 
p. 174/176:

Referem cronistas do tempo (André Thevet entre eles) um rito fundamental que delimita a posição ontológica da onça no pensamento tupi.

Quando pressentem que uma onça ameaça a taba, ou está nas redondezas, representando perigo para capadores ou qualquer outra pessoa que entre na mata, os índios armam mundéus – porque necessitam capturar o animal vivo.

É na taba que o matam, com uma pancada de ibirapema, na cabeça. Racham a cabeça da onça exatamente como fazem com a dos inimigos. A onça (esqueci de dizer) também recebe pintura e ornamento idênticos ao das vítimas humanas. Sua carne, contudo, não é consumida.

E a razão é simples: do corpo da onça não emerge nenhum taguaíba, nenhum espectro assombrado. A onça já é um espírito: um espírito que assumiu, voluntariamente, circunstancialmente, forma visível e matéria pesada. A onça, canibal e matador por excelência, está imune à aniquilação total, tem identidade plena, é um ser completo – perfeito, no sentido etimológico do termo.

Como perfeitos são também os caraibas. Disse antes que esses grandes feiticeiros têm o poder de se transformar em onças. Não é isso: caraíbas são onças, propriamente ditas, que se apresentam com uma pele humana. Por isso são tão perigosos, tendo que viver fora da taba, isolados na mata – porque a mata é o território dos espíritos.

A terceira manifestação desse mesmo princípio é o fundamento da própria tupinidade, presente na vida de todos os homens. O maior mérito, a maior conquista de um guerreiro tupi era o nome obtido quando rachasse a cabeça de um inimigo. Só depois de conquistado um nome desses, a partir da morte, era permitido ao homem ter um filho e dar um nome a ele.

Os que leram a crônica colonial, o epistolário jesuíta, as narrativas francesas ou outras fontes da época talvez não acreditam nessa informação, porque nesses documentos grandes personagens históricas indígenas ficaram conhecidas apenas por um único nome: Cunhambeba, Pindobuçu, Aimbiré, Caoquira, Abatipoçanga, Tibiriçá, Araribóia.

Esses “nomes”, na verdade, não eram os verdadeiros. Podemos considerá-los, tecnicamente, como meros apelidos. Nomes, num sentido estrito, eram anunciados apenas uma vez, e mantidos depois secretamente. Constituía ofensa grave, ou falta de decoro, nomear uma pessoa por um de seus nomes próprios.

Não conhecemos, portanto, nenhum exemplo deles. Mas parece que tais nomes eram grandes amuletos, eram as armas principais com que se enfrentavam os perigos da estrada dos mortos.

Não sei se mencionei que, para cada nome conquistado dessa forma, o matador tupi fazia uma incisão no corpo, com dente de cutia, e aplicava na ferida um pó de urucum – do que resultava uma espessa cicatriz.

Mais que os nomes, na verdade, o objetivo do matador era ter no corpo tantas cicatrizes que lhe permitiam fundar a própria taba; ou seja: adquirir a posição de tuxaua.

São eles, os tuxauas, os únicos membros da taba que podem ser sepultados dentro da própria oca – porque seu cadáver não libera nenhuma taguaíba, nenhum espectro. Os tuxauas também são, logicamente, onças. E as cicatrizes que acumulam não passam de transfigurações do que realmente está ali; são aquelas manchas negras da pelagem – que indicam nele a natureza felina.

É assim que se deve compreender a frase célebre do tuxaua Cunhambeba, registrada por Hans Staden: jaguara ixé – eu sou uma onça.

Não sei se o leitor sente como eu a grandeza dessa sabedoria. Ao terem a onça como meta, como objetivo ontológico, os antigos tupis afirmam que a condição humana não é hierarquicamente superior, no ordenamento natural; que não são os homens a realização suprema do criador do universo; que não somos, que estamos longe de ser melhores que qualquer animal.




sábado, 5 de agosto de 2017

DORAMUNDO Geraldo Ferraz

Melhoramentos, São Paulo, 1975 (primeira edição em 1967), 203 páginas.

Trecho Predileto de DORAMUNDO de Geraldo Ferraz, por Sandra Abrano

Amei ter assistido Doramundo de João Batista de Andrade.


Imagem relacionada



Eu, segundo ano de ciências sociais em 1978, recém-saída da casa dos pais tinha disposição infinita para ir ao cinema e preencher as noites solitárias e fins de semana vazios. Pelo menos é essa a lembrança que tenho, também preenchida por festas, beberagens diárias, intensa discussão política, algumas viagens reais e imaginárias, além, é claro, do trabalho burocrático das 8 às 18 que, afinal, era meu sustento.

Imagem relacionada

Enfim, essa era uma época em que eu estava descobrindo que a minha independência não era tão independente e a liberdade nem um pouco irrestrita. E foi nesse espírito que assisti ao filme de João Batista de Andrade, Doramundo. A cena em que um boi era morto a marretadas ainda martela na memória, assim como os assassinatos dos jovens trabalhadores na estrada de ferro, ambientada em Paranapiacaba misteriosa em meio à cerração permanente de suas tardes, noites e madrugadas, bucólica na imagem de suas casinhas de madeira, a estação de ferro com cara e jeito de inglesa e ladeiras forradas de paralelepípedo escorregadio pela constante umidade.

Há tempos queria ler o livro que deu origem ao filme.


Os assassinatos pareciam ocorrer sem razão aparente. 


O ponto comum entre as vítimas é que eram homens solteiros e trabalhadores na ferrovia, sempre mortos com um violento baque de uma barra de ferro em suas cabeças. A investigação policial não tardou a descobrir o motivo que já era amplamente conhecido da pequena população local: crime passional, ciúmes, traição. Os homens solteiros preenchiam suas horas vagas e necessidades com as mulheres casadas moradoras da pequena vila de trabalhadores da ferrovia.

Geraldo Ferraz, autor de Doramundo, não faz um relato linear dos acontecimentos. As vozes se alternam, os narradores se sucedem, um acontecimento ou uma conversa tida antes se encaixa com algo que vai ocorrer mais adiante. 


E é Adolfo Casais em seu prefácio ao livro quem esclarece que "'a ordem' dos acontecimentos só interessa secundariamente ao desenvolvimento do livro; eles importam mais como acumulação de carga emotiva do que como fatos de que a história dependa. Esta é, assim, um todo, não uma série de cenas, mas uma situação da qual importa ao autor fazer-nos sentir o impacto, e não o 'como' de cada sucesso. Pelo contrário, os acontecimentos só existem em função da relação de forças, do choque de impulsos, são como que meras ilustrações."




E é novamente Adolfo Casais Monteiro quem nos dá a chave do romance:

"Doramundo é um romance de forças primitivas, em que os personagens reais são de fato o sexo, a noite, o medo, a treva, um ciúme sem amor, o que, só por si, envolve todo o livro num clima de fatalidade cega, bem de acordo com as paixões primitivas em jogo."


É como se a névoa que encobre a cidade fosse incorporada pelo escritor, transformando em sinistro o povoado, não nos deixando identificar claramente as vítimas e muito menos o algoz. Será apenas um o algoz ou serão tantos quantos as vítimas?

Não há soluções fáceis no livro de Geraldo Ferraz e nem na vida, não é mesmo?


Trecho Predileto, página 22:
"Às vezes Cordilheira despertava dentro inteirinha das nuvens. Demorava desembaçar-se dos véus. Havia porém dias claros, logo cheios de chuva, ou mesmo de sol e de chuva. Outros, eram meias jornadas límpidas de azul, nunca entretanto 24 horas estáveis. Embora a proximidade da Grande Usina, Cordilheira tinha só uma iluminação pública, a das estrelas, Isto facilitou muitos crimes. Mesmo dentro do nevoeiro quando as nuvens roçavam pelo chão negro de Cordilheira. Todos molhados pisando nas pedras duras, ásperas. Era só o homem que as pisava, nenhum veículo, roda ou casco para quebrar as arestas. E as pedras que os homens pisavam lhes transmitiam mais dureza na solidão de Cordilheira. Para apoio da rua em diagonal olhai como lembra cidadela este retalho de muralha plantado na esquina da ladeira. Musgos verdolengos, limos gordos, liquens, samambaias despontando das gretadas componentes duras.

-- É, que casas - respondeu a senhora como achando o jeito maneiroso de saltar sobre o lameiro e a poça, os santos altos, arrepanhando graciosamente o vestido para não apanhar respingos:
-- Mas sabe, vivem numa tranquilidade, quem me dera a tranquilidade e paz das consciências deles.
-- Ah, sim, é verdade -- retrucou o parceiro.

Não reparou na ambição. Tranquilidade no meio de tanto ferro, fumaça, nuvem, carvão, pedra e muralha!
Tranquilidade minha senhora era um pedaço de ferro no escuro lascando a testa da consciência da paz -- em paz hem -- numa dessas noites sem estrelas de Cordilheira. Era o ódio que vem desde o princípio do mundo: a nossa inteira solidariedade nos crimes "Aquele, uns diziam, já teve o que merecia". Não seria uma reflexão do criminoso mesmo, recuperando o instante?"

Trecho Predileto de DORAMUNDO de Geraldo Ferraz, por Sandra Abrano



quinta-feira, 6 de julho de 2017

A PRIMEIRA HISTÓRIA DO MUNDO de Alberto Mussa

Record, 2014, Rio de Janeiro, 240 páginas, livro emprestado do parceiro de sarau, Chico Marafa.
Trecho Predileto de A PRIMEIRA HISTORIA DO MUNDO de Alberto Mussa, por Sandra Abrano

Há pouco fiz uma oficina de escrita criativa, mas não vou me alongar a esse respeito por um motivo simples: gostei da proposta inicial, detestei o desenvolvimento e condução, mas dou mão à palmatória ao afirmar que aprendi algumas coisas. A vida é assim: o lado ruim, não é totalmente ruim, não é verdade? Pois nessa oficina de escrita entendi o que Chuck Palahniuk (mais conhecido por ser autor de O CLUBE DA LUTA) insistia em afirmar no texto pregado no abajur da minha mesa de trabalho, local em que invariavelmente meu olhar estaciona várias vezes ao dia: mostre, não conte. 


Não afirme que um personagem está ansioso ou nervoso, mostre isso.


Falar é fácil. Mostrar é bem mais difícil.

Eu me propus a fazer alguns exercícios de escrita até que a noção entre contar e mostrar se solidificasse em aprendizagem automatizada. Afinal, essa é uma das características da literatura contemporânea, a literatura do meu tempo. Eu quero estar antenada com o que acontece e não é a idade cronológica que me afastará dessa turma.

E aí, exatamente nesse momento, A PRIMEIRA HISTÓRIA DO MUNDO chegou às minhas mãos em livro emprestado do Chico Marafa, um dos leitores admiráveis que compõe o sarau do qual eu prazeirosamente participo.

Alberto Mussa CONTA o tempo todo.
Como? Conta e não mostra?
Exatamente.

Resultado de imagem para a primeira história do mundoNesse romance histórico entramos em uma região conhecida como Carioca e também nas primeiras ruas do Rio de Janeiro de 1567. Um romance histórico que também é uma narrativa policial ao investigar o assassinato (verídico) do serralheiro Francisco da Costa, morto com 7 (quase 8) flechas, em um crime em que são suspeitos nada menos do que 15% da população da cidade.

Esse é um livro de ficção em permanente diálogo com a não ficção, ou seria o contrário?

Em boa parte da minha leitura tive a sensação de uma narrativa de não ficção flertando com recursos da ficção. Em um caso ou outro, é uma obra original e necessária, afinal, quer melhor modo de compor o Brasil da época em que mal havia se inaugurado o Brasil, tão em seus primórdios e tão indígena no cotidiano, crenças e mitos fundadores, para, quem sabe, catarmos os cacos do que esse país é hoje, consequência de nossos atos e de nossos antepassados, alguns dos quais são “contados” na primeira história do mundo com a participação das populações nativas e estrangeiras, essa última com tanta necessidade de poder e enriquecimento imediato em que, como sempre, os fins justificam todos os meios. Como antes, nesses primórdios, como agora na atualidade.

Mas não se pense que a narrativa é um tormento político histórico. Nada disso, antes de tudo, A PRIMEIRA HISTÓRIA DO MUNDO tem a ver com o amor, o ciúme e, quem sabe, o assassinato de Francisco da Costa tenha sido um crime... passional.

Trecho Predileto (há outros, todos longos, então, restrinjo a esse), p. 64/66 :
“Quando pisaram na praia, contudo, viram os nativos. Andavam mesmo todos nus; e, à exceção da parte de trás da cabeça, não tinham pelos no corpo, nem nos supercílios, nem na região pubiana. Usavam brincos de osso, braceletes de penas, colares de dentes e miçangas. Os homens, além desses adornos, levavam umas pedras verdes enfiadas nos lábios de baixo e às vezes pelas próprias bochechas.Lourenço Cão, aliás, talvez tenha sido o único dentre os estrangeiros a reparar melhor nos homens; tinham eles grandes cicatrizes no peito, nos braços, nas coxas. Não eram, todavia, ferimentos de guerra, pois tinham tamanho, espessura e recorte semelhantes. E havia um padrão naquilo: quanto mais velho era o indivíduo, mais cicatrizes exibia. Finalmente, Lourenço Cão identificou um princípio na disposição delas, como se fossem um desenho, como se constituíssem uma escrita. Essa afirmação, absurda, foi testemunhada pelo calafate.O capitão, animado com a índole aparentemente amistosa dos selvagens, apesar de estarem todos armados, tentou estabelecer um diálogo gestual, mostrando moedas de ouro e prata, tentando saber se existiam ali metais como aqueles.Toda essa cena, contudo, parece não ter interessado a certa personagem: o grumete, que fora ao porão trazer o prisioneiro. Admirava, esse rapaz, visivelmente excitado, a nudez das mulheres. Chegara a expressar um desejo temerário, que o gajeiro reprimira ainda no convés. Estavam a uma certa distância dos índios, tentando entabular aquele impossível diálogo.Foi quando uma das moças veio, sorridente, na direção dos estrangeiros. E parou ali, nua, completamente nua, diante dele, grumete (que certamente a atraíra pela insistência dos olhares), para experimentar, com os dedos, agora rindo muito, a textura da roupa e dos cabelos – que eram louros.Ocorreu, então, no rapaz, uma mudança. Nunca tivera, o grumete, uma mulher (é a afirmação do gajeiro). Nunca tinha visto uma mulher sem roupa. Conhecia apenas (a presunção é minha) a prática vulgar entre camaradas marinheiros. Tinha, logo, uma curiosidade muito natural.Assim, aquela nudez de moça, oferecida tão de perto, o alienou do mundo. E ele se atirou, ensandecido, sobre ela, tentando se desvencilhar das calças, enquanto abocanhava, com a boca inteira, um daqueles rijíssimos peitinhos.Não é difícil imaginar a reação dos nativos. Por sorte, não dispararam as flechas, talvez com medo de errarem o alvo e atingirem a indiazinha. Mas vieram, todos, contra os estrangeiros. Antes, porém, que os alcançassem, Lourenço Cão, num rompante, cravou a faca no pescoço do rapaz. Faca que dele mesmo recebera (como julgo ter deduzido), ainda no porão, para não estar completamente desarmado.Chegavam, enfim, ao verdadeiro mundo novo.”
Trecho Predileto de A PRIMEIRA HISTORIA DO MUNDO de Alberto Mussa, por Sandra Abrano

terça-feira, 30 de maio de 2017

DOM QUIXOTE de CERVANTES

Trecho Predileto de DOM QUIXOTE de Cervantes, por Sandra Abrano

Mais de quatro séculos depois e DOM QUIXOTE continua seu destino de sucesso: a alguns faz rir, a outros faz chorar, em algumas situações pode até constranger, compadecer, emputecer, aborrecer. Mas que livro esse que não deixa o leitor sossegado.

Trecho Predileto? 
No plural: trechos prediletos. 





Aqui só um aperitivo. Meu exemplar de dom Quixote ficou marcado pela atuação de uma leitora participativa: destaques, exclamações, orelhas!
Sacrilégio. 


Prólogo da Primeira Parte

“Desocupado leitor, não preciso jurar para que creias que eu quisera que este livro, como filho do entendimento, fosse o mais formoso, o mais galhardo e mais discreto que se pudesse imaginar. Porém, não pude contravir à ordem da natureza, na qual cada coisa gera outra que lhe seja semelhante. E, assim, o que poderia criar, a estéril e mal cultivada argúcia minha, senão a história de um filho magro, amalucado, caprichoso e cheio de pensamentos vários e nunca imaginados por outra pessoa, tal como quem foi gerado em um cárcere, onde todo o desconforto tem seu assento e onde todo triste ruído faz a sua habitação?” 


Capítulo I Que trata da condição e exercício do famoso fidalgo dom Quixote de La Mancha

“Em um lugar de La Mancha, de cujo nome não quero lembrar-me, não há muito vivia um fidalgo desses com lança guardada, escudo oval antigo, rocim fraco, e galgo corredor.”

“É, pois, de saber que este fidalgo nos intervalos de ócio -- que eram os mais do ano --, se dava a ler livros de cavalarias, com tanta dedicação e gosto, que esqueceu quase de todo o exercício da caça, e até a administração dos seus bens; e chegou a tanto sua curiosidade e desatino, que vendeu muitos trechos de terra de semeadura para comprar livros de cavalarias, e assim, levou a sua casa todos quanto pôde haver deles.”

“Então, rematado já de todo o juízo, deu no mais estranho pensamento em que jamais deu louco algum deste mundo, e foi que lhe pareceu conveniente e necessário, tanto para o aumento de sua honra quanto para proveito da república, fazer-se cavaleiro andante e ir-se pelo mundo com suas armas e cavalo, em busca de aventuras e a exercitar-se em tudo aquilo que tinha lido se exercitavam os cavaleiros andantes, desfazendo todo o gênero de agravos e pondo-se em ocasiões e perigos que, vencidos, rendesse perpétuo nome e fama.” 

Capítulo V  Em que prossegue a narrativa da desgraça do nosso cavaleiro

“-- Onde estás, senhora minha,
Que te não dói o meu mal?
Ou não nos sabes, senhora,
Ou és falsa e desleal.

Seleção de trechos: Sandra Abrano

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sábado, 29 de abril de 2017

O BICHO DA SEDA Robert Galbraith


Trecho Predileto de O BICHO DA SEDA de Robert Galbraith, por Sandra Abrano


Não deve ser fácil a vida de escritor famoso e rico:  cobranças por todos os lados, em todas as resenhas, invejinhas, dúvidas quanto à capacidade literária etc etc etc Mais difícil ainda é a vida do escritor que alcançou destaque mediano em algum momento da carreira literária, porém, o sucesso não chegou aos livros que se sucederam.

É mais ou menos esse o mundo em que se passa O BICHO-DA-SEDA de Robert Galbraith em seu segundo livro (o primeiro foi O CHAMADO DO CUCO) e para quem não sabe, Robert G. é pseudônimo de J. K. Rowling, autora da série Harry Potter.


O PERSONAGEM
Cormoran Strike tem lá seus trinta e cinco anos e aparenta mais. Ex-fuzileiro na guerra do Afeganistão, país onde perdeu parte de uma perna e um tanto de energia. Homenzarrão na altura e dimensão, é filho bastardo de um dos reis do rock inglês. Cormoran ganhou fama em Londres por esse fato e também por ter desvendado um caso difícil, contado no livro anterior. Manteve por dezesseis anos um relacionamento com uma linda mulher complicada e ainda amarga um tanto nessa relação mal resolvida.

Robin é sua jovem assistente, noiva de Matthew que morre de ciúmes de Strike.


A TRAMA
Leonora contrata Strike para localizar seu marido, o escritor Owen Quine, que saiu de casa há dez dias e não deu mais notícias. Leonora acha que o marido está em um retiro de escritores, mas não consegue o endereço ou o telefone do local.

Owen Quine escreveu um livro de sucesso há anos e, depois desse primeiro lampejo de sucesso, desaparece de tempos em tempos tentando dar visibilidade aos seus próximos lançamentos.

Strike passa os próximos dias tentando encontrar pistas de Owen Quine. Procura a agente literária, o editor, a amante do escritor, mas não obtém sucesso. Enquanto isso, o mundo literário entra em efervescência quando vem à tona que o último original entregue à editora de Owen, coloca  em situações vexatórias e escatológicas desafetos e amigos do escritor.

Bombix Mori é o título do original e se transforma em uma febre compartilhada em segredo pelo mundo editorial londrino e sofre a propulsão de uma bomba potente quando Owen é encontrado morto, exatamente como descreve em Bombix Mori.

Livro digestivo, romance policial bem amarrado, com personagens delineados satisfatoriamente, em narrativa envolvente. Isso até chegar o momento em que Cormoran Strike sente que encontrou a resposta para todo o enigma. O investigador toma decisões e faz interrogatórios em que só ele  sabe onde quer chegar, por consequência, só ele amarra as pontas do enigma.

Pena. Poderia ser um ótimo momento compartilhado. Cormoran (e a autora)
fez questão do prazer solitário.

De qualquer maneira, J.K.Rowling sabe contar uma história que se passa distante do mundo da magia, mas em que a realidade continua estranha, muito estranha.
Trecho Predileto de O BICHO DA SEDA de Robert Galbraith, por Sandra Abrano

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sexta-feira, 31 de março de 2017

MEU NOME É VERMELHO de Orhan Pamuk

Companhia das Letras, 2004, São Paulo, 534 páginas.

Trecho Predileto de MEU NOME É VERMELHO de Orhan Pamuk, por Sandra Abrano

Estamos no fim do século XVI, Istambul, em um ateliê de pintores miniaturistas que segue os preceitos do Islã, sendo o mais básico e fundamental deles é que toda a arte figurativa constitui uma afronta.


Porém, a arte retratista veneziana e a pintura renascentista já influencia a uns poucos por sua técnica artística tão diversa do que prega o islamismo. Tio Efêndi é um deles. Usa de sua influência junto ao sultão para sugerir uma obra ilustrada ao estilo estrangeiro. O sultão, então, encomenda ao Tio Efêndi um livro que pretende dar de presente ao doge de Veneza, com pinturas inspiradas na arte otomana usando algumas técnicas venezianas, para com isso demonstrar a superioridade islâmica ao mundo ocidental.

O projeto corre em absoluto segredo com Tio Efêndi coordenando o trabalho de quatro dos mais talentosos miniaturistas: Cegonha, Borboleta, Oliva e Elegante Efêndi.

Dezenove narradores se alternam para compor esse romance histórico permeado pela arte, filosofia e religião e, também, amor, ciúme, rivalidade, inveja, cobiça. Quer mais? Assassinatos e uma a intensa investigação.

O que dizer desse livro? 


É um livraço.

É pouco?
Então, o que dizer de Orhan Pamuk? 


O autor tem pleno domínio da narrativa. 

E isso é um grande elogio. Se não acredita, pergunte a algum amigo escritor e veja o que ele responde. 

Além disso, Orhan Pamuk condena publicamente o genocídio de armênios ocorrido durante a Primeira Guerra Mundial e atua na defesa dos direitos políticos dos curdos. Sua atuação internacional nessas duas questões o levou a ser processado pelo governo turco, em caso que provocou polêmica internacional.

Bom, eu já disse que são dezenove narradores. O que eu não disse é que, entre eles, há o "Eu sou meu cadáver" e "Eu, o Cão" e "Serei chamado Assassino" e, por que não, "Eu, o Diabo", de quem extraio um trecho da página 376 / 377. É um trecho um pouco longo, mas vale a pena:

"Comecemos do começo. Todo o mundo se agarra ao fato de que fiz Eva comer o fruto proibido, mas esquecem como tudo isso começou. Não, não começou tampouco com minha arrogância diante de Alá. Antes de tudo o mais, houve essa história de Ele nos apresentar o homem e querer que nos inclinássemos diante deste, o que encontrou minha legítima e decidida recusa, embora os outros anjos tenham obedecido. Vocês acham correto que, depois de me ter criado do fogo, Ele exija que eu me incline diante do homem, que Ele criou do mais reles barro? Ora, meus irmãos, digam a verdade, em sã consciência! Está bem, sei que vocês já pensaram no assunto mas temem que o que for dito aqui não fique apenas entre nós: Ele vai ouvir tudo e um dia vai lhes pedir explicações. Tudo bem, não me interessa saber por que Ele lhes deu uma consciência assim. Admito, vocês têm por que ter medo, portanto vamos deixar pra lá essa questão do barro e do fogo. mas tem uma coisa de que não me esqueço nunca, sim, uma coisa de que sempre me orgulharei: nunca me inclinei diante do homem.

Ora, é precisamente o que fazem os europeus. De fato, não só eles fazem questão de retratar e de exibir todos os detalhes daqueles grão-senhores, daqueles padres e daqueles ricos mercadores, e até das mulheres deles -- cor dos olhos, textura da pele, contornos dos lábios, efeitos de sombra de um decote, rugas na testa, anéis nos dedos, até os tufos de pêlo que saem das orelhas --, mas ainda por cima colocam essas pessoas no centro de seus quadros, que exigem igual fazem com seus ídolos, como se o homem fosse um objeto de culto e todos devessem se prosternar diante dele! Ora, porventura o homem é tão importante assim para que desenhem todos os seus detalhes, inclusive sua sombra? Se desenhássemos as casas de uma rua de acordo com a falsa percepção do homem, isto é, diminuindo de tamanho à medida que estão mais distantes, não seria usurpar para o homem o centro do mundo, que é o lugar que cabe a Alá? Bem, Ele, o Todo-Poderoso, em sua clarividência, saberá julgar melhor que eu, mas acho que todos compreenderão que é um absurdo me culpar pela ideia de fazer esses retratos, logo a mim que sofro as consequências -- a dor indescritível do exílio, a perda da graça de Alá, de quem eu era o favorito, tornando-me objeto de pragas e injúrias -- da minha recusa original de me inclinar diante do homem. Mais razoável seria fazer como certos mulás e pregadores esclarecidos que me apontam como responsável pelas crianças brincarem com suas partes e as pessoas peidarem."
Trecho Predileto de MEU NOME É VERMELHO de Orhan Pamuk, por Sandra Abrano


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segunda-feira, 27 de fevereiro de 2017

O SINEIRO Edgar Wallace

Ediouro,  Rio de Janeiro, 1983, 178 páginas. Edição popular, com introdução de Paulo Mendes Campos.



O escritor e dramaturgo inglês Edgar Wallace viveu 57 anos (faleceu em 1932) e, nesse meio tempo, escreveu 175 livros, 24 peças de teatro, além de publicação de contos policiais em jornais. 



A esses números espantosos, fico sabendo que 160 filmes foram lançados a partir de seus escritos. A tentação em ler um dos quase vinte livros que tenho dele aqui no sebo foi forte. Escolhi O SINEIRO, inicialmente adaptado como peça de teatro alcançando grande sucesso. Edgar Wallace adaptou o texto para romance policial e aí estava eu debruçada nesta edição popular da Ediouro, letra minúscula, papel amarelado pelo tempo.

O SINEIRO é o homem de mil disfarces, capaz de enganar sua própria esposa com seus estratagemas (que dirá os policiais). Forjou sua morte na Austrália, mas não conseguiu ludibriar por muito tempo os atentos detetives da Scotland Yard que amargam o insucesso nas tentativas de capturá-lo. Volta a Londres ignorando o perigo, em busca de vingança pela morte de sua bela irmã Gwenda Milton, suicida. O Sineiro atribui a responsabilidade pelo fato ao ardiloso advogado Messer. 


Messer treme nas bases com a possibilidade de ser objeto de vingança do perigoso Sineiro, mas isso não o impede de continuar como intermediário em roubos milionários e em não dar paz à sua nova e linda secretária, vítima de seu assédio.

O tempo todo da leitura é como se as cenas se passassem na tela mental da minha memória. Já vi esse filme antes? Não sei. Mas todo o clima, descrição de personagens e momentos de tensão se passam em clima de filme noir.

Respondendo à pergunta se já vi esse filme antes, respondo que adoro uma reprise de filme noir...
Resenha de Sandra Abrano
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