terça-feira, 27 de março de 2018

ZULU de Cary Férey

Vestígios, 2015

Observações da leitura de ZULU de Cary Férey, por Sandra Abrano

O fim do apartheid recém comemorou a maioridade às vésperas da Copa do Mundo na África do Sul de 2010. Gangues, grupos criminosos organizados, miséria, crianças moradoras de rua à mercê da violência, drogas baratas transformando em zumbis homens e mulheres, a Aids contaminando bem perto da metade da população pobre, fatos que mostram não ser fácil viver por lá.

(Tá-tá, não é fácil viver por aqui também, pós-copa do mundo de futebol, pós-olimpíadas, pós-golpe, ainda acrescentando os poderes executivo, legislativo e judiciário que não se dão ao respeito, desemprego em seu maior índice nas últimas décadas e o noticiário querendo nos convencer que as coisas estão melhorando.)

Voltando para a África do Sul de 2010, aos crimes variados e com graus de violência crescente adiciona-se a sanha de indústrias globais que precisam de cobaias, massa de gente a seu bel prazer, sem direitos ou sem o interesse de quem as defenda.


O enredo se passa na África do Sul às vésperas da Copa do Mundo, mas bem poderia ser no Brasil, no Iraque invadido, na Síria em guerra, na Venezuela depauperada, na Guatemala, México... 

A narrativa de Cary Férey são coloridas pelo tom local, mas tem um fundo mundial.

O autor de ZULU é francês, Cary Férey, e esse livro ganhou os principais prêmios delegados a roman noir na França.

O enredo.  O capitão Ali Neuman da etnia zulu é o chefe da polícia criminal de Cape Town, vitrine da África do Sul. Neuman tem Dan Fletcher como braço direito, especializado em novas tecnologias e avesso à violência; o trio é completado pelo incontrolável tenente Brian Epkeen que lida com o casamento de sua ex-mulher e um bem-sucedido dentista e a completa rejeição de seu filho com quem o tenente tenta se reaproximar, sem sucesso.

Os três policiais investigam o assassinato da jovem filha de um ex-campeão de rugbi da elite branca, enquanto se vêem atropelados pelas consequências de uma nova e mortal droga vendida nas townships e que ameaça ultrapassar a barreira da miséria, chegando à zona rica e branca da capital sul africana.

O que tenho a dizer da leitura? 
Daquelas que tiram o fôlego, o sossego e o sono.
Observações da leitura de ZULU de Cary Férey, por Sandra Abrano

segunda-feira, 26 de fevereiro de 2018

A AMIGA GENIAL ELENA FERRANTE

Editora Globo, Biblioteca Azul, 2015, São Paulo, 336 páginas
Observações da leitura de A AMIGA GENIAL de Elena Ferrante, por Sandra Abrano

Esse não é um livro para trechos prediletos. A história nos fala pessoalmente, lembranças vêm de onde nem sabíamos, assim, de perto e pessoalmente. Pode-se falar de Nápoles, mas conta de cada um de nós. Então, o primeiro curto capítulo do Prólogo como Trecho Predileto.

Página 13:
Hoje de manhã Rino me ligou, pensei que ele quisesse mais dinheiro e me preparei para negar. No entanto o motivo da chamada era outro: a mãe dele tinha desaparecido.
"Desde quando?"
"Faz duas semanas."
"E só agora você me liga?"
O tom deve ter parecido hostil, embora eu não estivesse chateada ou indignada, era apenas uma ponta de sarcasmo. Ele tentou contestar, mas de modo confuso, embaraçado, misturando o dialeto com o italiano. Disse que tinha certeza de que a mãe estava passeando em Nápoles, como de costume.
"Inclusive à noite?"
"Você sabe como ela é."
"Eu sei, mas você acha normal duas semanas de ausência?"
"Acho. Faz muito tempo que você não a vê, ela deu uma piorada: nunca dorme, entra, sai, faz o que bem entende."
O fato é que agora ele estava preocupado. Perguntara a todo mundo, passara por todos os hospitais, estivera até na polícia. Nada, a mãe não estava em lugar nenhum. Que bom filho: um homem grande, de seus quarenta anos, que nunca trabalhou na vida, apenas transações e gastanças. Imaginei com quanto cuidado ele fez suas buscas. Nenhum. Não tinha cabeça, e em seu coração só havia ele.
"Por acaso ela está com você?", indagou de repente.
Sua mãe? Aqui em Turim? Ele, sim, é que era um viajante, viera à minha casa pelo menos umas dez vezes, e sem ser convidado. Quanto à mãe dele, eu a teria acolhido de bom grado: ela nunca saíra de Nápoles na vida. Respondi:
"Não, ela não está comigo."
"Tem certeza?"
"Rino, por favor: já lhe disse que não está."
"Mas  para onde ela foi?"
Então começou a chorar, e eu o deixei fazer sua cena de desespero, soluços que começavam fingidos e prosseguiam verdadeiros. Quando terminou, disse a ele:
"Por favor, pelo menos uma vez, comporte-se como ela gostaria: não a procure."
"O que você disse?"
"Disse isso mesmo. É inútil. Aprenda a viver por sua própria conta, e também não me procure."
Desliguei.
Observações da leitura de A AMIGA GENIAL de Elena Ferrante, por Sandra Abrano

quarta-feira, 14 de fevereiro de 2018

Noite dentro da Noite de Joca Reiners Terron

Companhia das Letras, 2017, São Paulo, 464 páginas.
Observações da leitura de NOITE DENTRO DA NOITE de Joca Reiners Terron, por Sandra Abrano

Um menino, mudo e sem memória devido a um acidente, vive com "o homem que diz ser seu pai" e com a mãe, sem nome, indicada pelo filho como "a rata". O pai é bancário e a mãe tem interesse em química, com habilidade para fabricação de bombas e esculturas de gelo.

A rata conta histórias que não são infantis ao menino e é a responsável por lhe dar fenobarbital em horários regulares, remédio usado para controlar as convulsões constantes desde o acidente, nomeado pela rata como dia do início do Grande Branco.

O narrador é Curt Meyer-Classon, alemão, espião, tradutor, interessado em captar o som dos mortos em seu gravador. Ele relata a trajetória de pessoas ligadas ao menino. O período segue por 1942, 1946, 1964, 1975, 1989 períodos em que o Brasil também é personagem, bem como os irmãos Reiners (Karl, Hugo e a rata) e o homem que se dizia ser seu pai, além do assistente de Filinto Muller, de Kurt Meier, dos prisioneiros da ilha Grande e dos imigrantes que chegam para realizar sua utopia entre eles a irmã de Nietzsche, sem esquecer do pyhareryepypepyhare, uma espécie de musgo vampiro. O candidato à presidência de esquerda de 1989, Hilda Hilst e Himmler têm papéis coadjuvantes na trama.


estranhamento

Eu me mantive em tensão constante da perda do fio da meada. A habilidade do autor realocava a narrativa para dentro do meu entendimento.


aflição

As exasperantes experiências com crianças, os remédios que nublam a consciência, um constante mau pressentimento e o pyhareryepypepyhare que chega ao Brasil de submarino crescendo em um meio indefinido entre água e terra onde lontras agressivas somem com crianças (as crianças sofrem nesse enredo: são lentamente dizimadas pela inanição e experiências químicas na Alemanha nazista, sofrem bullying, perda de memória, perda da capacidade de falar, desconfiança em relação aos pais, são vítimas de explosão, são atraídos e traídos).

Nunca imaginei que lontras fossem perigosas nem sofri as consequências do contato com líquens estrangeiros, mas conheço bem o sentimento de inadequação, porém, isso foi pouco para um mergulho nessa noite dentro da noite envolta em névoa, das pesadas.

Tiro o chapéu, Joca Reiners Terron. Um livro de fôlego, para poucos.



Trecho Predileto, página 231
Mas a solidão do casarão de Curva de Rio Sujo, as chuvas e os sapos intermináveis, as cobras que habitavam o quintal, o acúmulo de tudo isso aos poucos terminou por levá-la à conclusão de que em sua vida o número de penas superava com folga o de alegrias. E àquela altura a rata já sabia que o fator decisivo não se baseava na mera possibilidade de o mal existir, pois o mal existia, era real e bastante palpável, e ela o conheceu de perto em uma situação que nunca esqueceria. Sabia, portanto, que uma equação estava sendo tramada por forças invisíveis orientadas pelo acaso ou por ordens superiores, e que uma hora o mal se repetiria, pelo simples fato de que era assim, a vida era assim, e passados uns breves instantes de distração, talvez nem chegassem a tantos, apenas umas poucas alegrias, o mal podia inclusive se infiltrar entre uma alegria e outra, desfazendo uma ordem que não devia ser desfeita. E ela sabia: o mal, quando surgia, era implacável.
Observações da leitura de NOITE DENTRO DA NOITE de Joca Reiners Terron, por Sandra Abrano

segunda-feira, 8 de janeiro de 2018

O BEBEDOR DE HORIZONTES de MIA COUTO

Caminho Editorial, 2017, Alfragide - Portugal, 380 páginas.
Impressões de leitura de O BEBEDOR DE HORIZONTES de Mia Couto por Sandra Abrano.

Nunca fui de fazer promessas ou me empenhar em resoluções de final de ano. Mas, no final de 2016 foi diferente e quem me lembrou disso foi uma amiga ao lhe contar de mais uma viagem que faria. 

"Bem que vc disse".
Disse? Eu?
E a lembrança foi chegando meio vaga.
Assim, do nada, em um café entre amigas já no final de 2016, soltei uma profecia absolutamente improvável: vou fazer três viagens no próximo ano.
E fiz.

De uma forma ou outra essas viagens ficaram registradas aqui no TRECHO PREDILETO, porque em cada uma delas os livros me acompanharam.


Trouxe O BEBEDOR DE HORIZONTES da terceira e última viagem de 2017. Esse último volume, ainda inédito no Brasil, compõe a trilogia moçambicana AS AREIAS DO IMPERADOR. Não compramos em Portugal os primeiro e segundo volumes porque eles já estão publicados no Brasil e, o câmbio completamente desfavorável que transforma um livro de 16 euros em salgados 64 reais, nos fez optar pela compra no Brasil.


O charme da situação é que fomos ao lançamento do livro, com direito a autógrafo e self com o autor.

A viagem seguia pela metade e eu tinha acabado de ler A MÁQUINA DE FAZER ESPANHÓIS, companhia de sotaque português, o que me fez não desejar outra coisa para o término da viagem. Decidi, então, começar a leitura pelo último volume da trilogia, sabendo o crime que cometia ao "pular" os dois anteriores.

Bom, o sotaque dos personagens de Mia Couto se mostraram mais próximos do meu português brasileiro, apesar das invocações africanas constantes que também não são tão estranhas assim para nós.

Esse terceiro volume se inicia com o rei de Gaza, Ngungunyane, capturado pelo capitão Mouzinho de Albuquerque ao tomar de assalto a povoação real de Chaimite. O olhar narrativo é de Imani Nsambe, uma garota de quinze anos grávida de um sargento português.  Imani fala a língua portuguesa fluentemente e atua como tradutora na travessia de Ngungunyane em direção ao exílio. Acompanham o rei de Gaza sete de suas trezentas esposas, seu filho Godido, o tio e conselheiro Mulungo e o cozinheiro Ngó. Na mesma embarcação, seguem, ainda, o chefe dos mfumos, Zixaxa e suas três mulheres, inimigo mortal de Ngungunyane e, como ele, aprisionado pelos portugueses.

É a tradutora, ora na função de espiã do rei de Gaza, ora espiã dos portugueses, quem nos relata os acontecimentos no trajeto marítimo que conduzirá os africanos para um distante exílio, com parada inglória no reino de Portugal.

Mia Couto conduz a narrativa de forma temperada pelas tradições ancestrais de seu país, suas crenças e o drama dos desterrados, carregando de sentimentos universais a trajetória de constantes humilhações.

Imani nos apresenta a sequência dos acontecimentos que parecem fadados a ocorrer como fatos inevitáveis do destino, por menos que assim o desejem quem sofre as consequências de decisões políticas de reinos tão distantes de Gaza, como os de Portugal e da Inglaterra.

O resultado da leitura desse terceiro volume da trilogia me surpreendeu. Imaginei que ao término da leitura, essa história estivesse acabada para mim. Ao contrário, parto agora para os dois volumes iniciais...

Se ao final de 2017 fiz outra profecia?

Infelizmente para se realizarem elas tem que aparecer espontaneamente... e todas que pintaram foram fruto do meu pensamento racional e organizado.

Pena...

Trecho Predileto, página 348.
"E escrevemos esta longa carta apoiados nessa pedra branca que contrasta com o paredão de rocha escura que margina a praia.Esta pedra tem uma história, disse ele.Quem a trouxe para a Terceira tinha sido o seu avô, um velho marinheiro de longo curso. Numa viagem junto à costa de África decidiu o capitão acostar numa praia. A intenção era visitar um padrão que os descobridores portugueses ali haviam implantado há séculos. Perguntaram aos indígenas pelo Cabo da Cruz. Ninguém nunca ouvira tal nome. Perguntaram pela coluna de pedra com a cruz e as cinco quinas gravadas. Ninguém nunca vira tal pedra. Os marinheiros deram as devidas explicações aos nativos. E os negros mostraram-lhes um enorme buraco. O padrão tinha-se afundado, como se a praia tivesse fome de pedra. Desenterraram-no os marinheiros e voltaram a colocá-lo de pé sobre a areia. No dia seguinte o padrão de novo submergira no chão africano. Os negros disseram aos portugueses: Levem essa pedra. É vossa, levem-na convosco. Este nosso chão não aguenta o peso dessa pedra.

Impressões de leitura de O BEBEDOR DE HORIZONTES de Mia Couto por Sandra Abrano.


quinta-feira, 21 de dezembro de 2017

A MÁQUINA DE FAZER ESPANHÓIS de Valter Hugo Mãe

CosacNaify, 2011, São Paulo, 256 páginas.
Observações da leitura de A MÁQUINA DE FAZER ESPANHÓIS de Valter Hugo Mãe, por Sandra Abrano

Não poderia haver melhor companhia de viagem. A MÁQUINA DE FAZER ESPANHÓIS ultrapassou minhas expectativas infladas pela opinião dos amigos que o haviam lido.


Eu e minhas confissões, inadequadas nesse espaço que é para opinião a respeito dos livros que leio:

há anos tenho ideia de ter a companhia de personagens com maior idade. O primeiro projeto que me veio à cabeça há uns bons anos era um escritor-vendedor de seus próprios livros que, em certa oportunidade, reencontra um amor de outra época para ajudá-la a recuperar o direito a herança do marido recém falecido. A idade dos personagens principais não seria inferior a sessenta e nove anos. Um cotidiano dolorido, mas repleto de acontecimentos, deixaria claro que a idade não é necessariamente um impedimento para se viver intensamente.

Mulher de pouco tempo e fé, deixei o projeto adormecido em sono profundo, estado que continua e, pelo que me consta, assim permanecerá.

Bom, mas estou aqui para indicar o trecho predileto do livro de Valter Hugo Mãe e não para falar de meus projetos de escrita engavetados.

Desta vez não escreverei uma resenha. Lido em recente viagem, foi uma ótima companhia e me causou impressão pra lá de boa. Dizem que esse é o título "mais realista" do Valter Hugo Mãe. Quero mais desses, por favor.


Trecho Predileto, página 23:
"a laura morreu, pegaram em mim e puseram-me no lar com dois sacos de roupa e um álbum de fotografias. foi o que fizeram. depois, nessa mesma tarde, levaram o álbum porque achavam que ia servir apenas para que eu cultivasse a dor de perder a minha mulher. depois, ainda nessa mesma tarde, trouxeram uma imagem da nossa senhora de fátima e disseram que, com o tempo, eu haveria de ganhar um credo religioso, aprenderia a rezar e salvaria assim a minha alma. e um médico respondeu, a verdade é que ficam mais calmos. achei que era esperado de mim um desespero motor. digo motor para dizer de ação. algo como quebrar coisas, revirar os móveis, agredir fisicamente os funcionários, os enfermeiros que me poderiam prender. o quarto pequeno é todo ele uma cela, a janela não abre e, se o vidro se partir, as grades de ferro antigas seguram as pessoas do lado de dentro do edifício. pus-me a olhar para o chão, com ar de entregue. estou entregue, pensei. aos meus pés os dois sacos de roupa e uma enfermeira dizendo coisas simples, convencida de que a idade mental de um idoso é, de facto, igual à de uma criança. o choque de se ser assim tratado é tremendo e, numa primeira fase, fica-se sem reacção. se aquela enfermeira pudesse acabar com aquele sorriso, ao menos acabar com aquele sorriso, seria mais fácil para mim entender que os meus sentimentos valiam algo e que sofrer pela laura não vinha de uma lonjura alienígena, não era uma estupidez e, menos ainda, vinha de um crime para clausura e tudo. e ela sorria e eu poderia desejar-lhe, com tanto desprezo, o pior mal do mundo. que lhe arrancassem os braços e as pernas, pensava eu, tirem-lhe os olhos e façam-na perder a voz e chamem-lhe cabra porque é o que ela merece. senhor silva, com esta mantinha vai ficar quentinho à noite. ainda aqui vai ter muitos sonhos bonitos, vai ver.

Trecho Predileto, página 33:
"um problema com o ser-se velho é o de julgarem que ainda devemos aprender coisas quando, na verdade, estamos a desaprendê-las, e faz todo o sentido que assim seja para que nos afundemos inconscientemente na iminência do desaparecimento. a inconsciência para as dores, claro, e apaga as alegrias, mas já não são muitas as alegrias e no resultado da conta é bem-visto que a cabeça dos velhos se destitua da razão para que, tão de frente à morte, não entremos em pânico."
Observações da leitura de A MÁQUINA DE FAZER ESPANHÓIS de Valter Hugo Mãe, por Sandra Abrano


quarta-feira, 13 de dezembro de 2017

MACUNAÍMA de Mário de Andrade

Nova Fronteira, Rio de Janeiro, 2013, 240 páginas.

Anotações da leitura de MACUNAÍMA, Mário de Andrade, por Sandra Abrano

Literatura obrigatória e aborrecida na adolescência, hoje, com as referências de mais de meio século de vida, a leitura de MACUNAÍMA foi puro prazer.

Deixei para o fim a leitura dos prefácios e encontrei jóias:

Prefácio:


"Os meus livros podem ser resultado dos meus estudos porém ninguém não estude nos meus trabalhos de ficção, leva fubeca."

Segundo prefácio:
"E resta a circunstância da falta de caráter do herói. Falta de caráter no duplo sentido de indivíduo sem caráter moral e sem característico. Está certo. Sem esse pessimismo eu não seria amigo sincero dos meus patrícios. É a sátira dura do livro."

[...] "Nas épocas de transição social como a de agora é duro o compromisso com o que tem de vir e quase ninguém não sabe. Eu não sei."


"Me parece que os melhores elementos duma cultura nacional aparecem nele [no livro Macunaíma]. Possui psicologia própria e maneira de expressão própria. Possui uma filosofia aplicada entre otimismo ao excesso e pessimismo ao excesso dum país bem onde o praceano considera a Providência como sendo brasileira e o homem da terra pita o conceito de pachorra mais que fumo."


E um texto cheio de delícias! É só ver no Trecho Predileto, página 151:

" No fim da semana o herói já estava descansando bem e foi na cidade buscar sarna pra se coçar. Andou banzando banzando, e muito fatigado por causa da fraqueza parou no parque do Anhangabaú. Chegara bem debaixo do monumento a Carlos Gomes que fora um músico muito célebre e agora era uma estrelinha do céu."

Anotações da leitura de MACUNAÍMA, Mário de Andrade, por Sandra Abrano





quinta-feira, 16 de novembro de 2017

O IDIOTA de Fiódor Mikháilovitch Dostoievski

José Olympio Editora, Rio de Janeiro, 1962, 628 páginas

Trecho Predileto de O IDIOTA de Fiódor Mikháilovitch Dostoievski, por Sandra Abrano

Eu e minha amiga Ângela passamos o último ano em encontros mais ou menos semanais para lermos O IDIOTA de Dostoievski. 


Os encontros foram duplamente especiais: primeiro porque colocamos a conversa de amigas em dia e, segundo, o texto era lido em voz alta trazendo extrema atenção e ritmo à narrativa.

O primeiro que dessa forma lemos foi DOM QUIXOTE de Cervantes e pensamos que o próximo será DECAMERON de Boccaccio. Escolhemos livros que, apesar do interesse pessoal na leitura, encontramos dificuldade em atravessar as não poucas páginas utilizando o método tradicional e solitário. Descobrimos, assim, que a leitura compartilhada é um grande incentivo e o fato dela ser realizada em voz alta, com o ritmo, entonação e velocidade individual, transforma a leitura em uma descoberta prazerosa, atenta e divertida, instantaneamente permeada por observações, reclamos e troca de informações.

No caso de O IDIOTA,
não foram poucas vezes que paramos para identificar o personagem e seus duplos ou triplos nomes russos impronunciáveis, reclamarmos da doçura de Michkin, da selvageria, egoísmo e oportunismo de alguns personagens ou falta de suporte e apoio de quem dele gostava e era influenciado por suas atitudes e convencido por seus argumentos humanos.


O príncipe Michkin é um personagem estranho para os moldes modernos: sua compaixão sem limites se choca com o desregramento e a falta de princípios de agora (e da época em que o livro se passa).


  Um dom Quixote crédulo e gentil  deixa marcas no leitor que se assombra por achá-lo inadequado e, por fim, percebe que inadequados são todos os outros e si próprio. 



Não achei o "melhor" livro de Dostoievski. Muitas vezes prolixo, foi inicialmente publicado como folhetim no Rusiki Vestnik -- O Mensageiro Russo -- e essa forma de publicação com prazo para ser lançado, desculpa a falta de concisão e o verbo extra de suas 628 páginas.

Escrito de setembro de 1867 a janeiro de 1869, período em que o escritor e sua segunda mulher, Ana Grigórievna, estavam morando entre Genebra (Suíça) e Florença (Itália). Segundo informações de Sofia Aleksandrovna Ivanov, sobrinha de Dostoievski, publicadas em nota à edição da José Olympio, O IDIOTA foi escrito em meio a muitas adversidades. Os problemas financeiros, as constantes crises de epilepsia, a compulsão para o jogo, a perda da filha de apenas três meses, são os ingredientes que acompanharam a elaboração "difícil e torturada" desse livro.

Nas palavras de Dostoievski incluídas em nota já citada, "Apesar de todo o meu desgosto [pela perda de sua filhinha], trabalhei dia e noite no meu romance durante todo este mês." [...] "como eu amaldiçoei o meu trabalho, como me foi penoso e odioso escrever!" [...] "Agora está terminado, finalmente! Redigi os últimos capítulos trabalhando dia e noite com angústia, na mais terrível das inquietações [...] mas não estou satisfeito com a minha obra, pois não digo nela nem a centésima parte do que quisera ter dito [...] Mas não me censuro por isso e continuo amando essas ideias malogradas."

Se não achei esse o "melhor"  de Dostoievski, dou a mão à palmatória ao não parar de reler pequenos trechos e mesmo capítulos inteiros.

Mishkin, Nastássia, Aglaia, Gavríl, a generala e o general Impantchin, o insuportável e eternamente moribundo Ippolit e tantos outros personagens me sussurram sentimentos e emoções há quase duas semanas após o término a leitura. 

Tenho de admitir que o endividado, atormentado e intenso Dostoievski é um excepcional entre os pares. E é em sua lembrança que seleciono um trecho em que o escritor escreve a respeito dos comuns, dos que aparentemente não deixam marcas de sua passagem. Só acrescento ao trecho escolhido que são essas minúsculas marcas dos comuns que fazem a narrativa de todos nós.




Trecho Predileto, página 469
[...] "Todavia a pergunta fica de pé:
que fará um autor com gente comum, absolutamente 'comum', e como há de colocá-la diante do leitor tornando-a interessante? 

É de todo impossível deixá-la fora da ficção, pois essa gente do lugar-comum é, a todo momento, o principal e indispensável anel da cadeia dos negócios humanos. Se os deixarmos de fora perdemos toda a verossimilhança com a realidade. Encher uma novela completamente só com tipos, ou melhor, querer torná-la interessante mediante apenas caracteres estranhos e incríveis será querer torná-la irreal e até mesmo desinteressante. A nosso ver, um escritor deve procurar a torto e a direito enredos interessantes e instrutivos mesmo entre gente vulgar. Quando, por exemplo, a natureza mesma de certas pessoas vulgares reside justamente em sua perpétua e invariável vulgaridade, ou melhor ainda, quando, apesar de todos os mais estrênuos esforços para fugir à órbita da mesmice e da rotina, essa gente acaba por se sentir invariavelmente ligada para sempre a essa mesma rotina, então a gente adquire um caráter sui-generis, todo seu, o caráter da vulgaridade, desejosa acima de tudo de ser independente e original sem a menor possibilidade de o conseguir.
[...]
Não há, com efeito, nada mais aborrecido do que ser, por exemplo, rico, de boa família, ter boa aparência, ser bastante esperto e mesmo sagaz e todavia não ter talento, nenhuma faculdade especial, nenhuma personalidade mesmo, nenhuma ideia pessoal, não sendo propriamente mais do que 'como todo mundo'.
[...]
Há uma extraordinária multidão de gente assim no mundo, muito mais do que a muitos possa parecer.

Essa multidão pode, como toda a outra gente, ser dividida em duas classes: os de inteligência limitada e os de alcance mais vasto. Os primeiros são os mais felizes. Nada é mais fácil para essa gente 'comum', de inteligência restrita, do que se imaginar original e mesmo exceção, e folgar com essa ilusão, nunca chegando a perceber o equívoco. Basta a muitas de nossas mocinhas cortarem o cabelo de certo modo e usarem óculos azuis e se cognominarem de niilistas, para ficarem de vez persuadidas de que, com isso só, obtiveram automaticamente 'convicções' próprias. Basta a certos cavalheiros sentir o mais leve prurido de qualquer emoção bondosa e humanitária para que imediatamente fiquem persuadidos de que ninguém mais sente o que eles sentiram, e de que formam a vanguarda da cultura. Basta a certos indivíduos assimilar uma ideia expressa por outrem, ou ler qualquer página solta, para imediatamente acreditarem que essa é a sua opinião pessoal espontaneamente brotada de seu cérebro. A imprudência da simplicidade é, se assim se pode dizer, espantosa, em tais casos. Por mais incrível que pareça, isso existe.



Essa imprudência de simplicidade, essa confiança sem vacilações do homem estúpido em seus talentos, foi soberbamente pintada por Gógol  no espantoso caráter do seu personagem, o tenente Pirogov. 

Pirogov não possuía a menor dúvida de que era um gênio, superior mesmo a qualquer gênio. Tinha tal certeza disso que jamais consigo mesmo debateu isso. Aliás nunca, com efeito, debateu coisa alguma. O grande escritor foi obrigado até, no fim, a castigá-lo,  como uma espécie de satisfação ao ultraje moral sentido pelo leitor. Vendo, porém, que o grande homem apenas titubeia um pouco, depois do castigo, logo se refazendo ao engolir um pastel, ele, Gogol, levanta as mãos para o céu, cheio de espanto, e deixa que o leitor dê cabo dele como quiser. Nunca me conformei que Gogol tomasse o seu grande Pirogov de uma escala tão humilde; era tão senhor de si que nada lhe foi mais fácil, à medida que suas dragonas aumentavam de espessura e de torcidinhos, do que se imaginar um extraordinário gênio militar, ou melhor, não se imaginar, mas ter isso como certo e líquido. Pois se fora feito general, logicamente que era um gênio militar! E quantos como ele não fizeram terríveis fiascos, depois, nos campos de batalha?



E quantos Pirogov não tem havido entre os nossos escritores, sábios e propagandistas! 

Digo 'tem havido', mas naturalmente que ainda os há!


Gavríl Ardalionovitch Ivolguin enquadrava-se na segunda categoria. Pertencia à classe dos 'mais dotados', embora o enfatuasse, da cabeça aos pés, o desejo da originalidade. Mas tal classe, como já observamos acima, é bem menos feliz do que a primeira: pois o homem vulgar 'esperto', mesmo se se considera ocasionalmente, ou sempre, homem de gênio ou de originalidade, conserva o verme da dúvida enquistado em seu coração, o que, em muitos casos, arrasta o nosso homem sagaz ao extremo desespero. Mesmo quando se submete, o faz completamente envenenado, visto seu íntimo ser dirigido por sua vaidade. Mas o exemplo que tomamos foi extremo. Para a grande maioria dessa gente hábil as coisas não terminam assim tão tragicamente. O mais que acontece a tais pessoas é ficarem com o fígado afetado na velhice. Mas antes de desistirem e se humilharem, esses homens não raro fazem papéis de malucos; e tudo só pelo desejo de originalidade. E realmente há estranhos exemplos dessa asserção;



um homem direito, às vezes, por querer ser original, é capaz de cometer uma baixeza.

Acontece comumente que um desses desprotegidos da sorte não só é honesto como bom; é o anjo da guarda da família e mantém, por meio do seu trabalho, não apenas os seus, mas também os estranhos. mesmo assim não consegue descanso em toda a sua vida! O pensamento de que preencheu tão bem a sua vida, em vez de lhe dar conforto e consolo, muito pelo contrário, o irrita. 'Foi apenas nisto que consumi toda a minha vida?, diz ele. Foi nisto que me atolei dos pés à cabeça? Foi pois nisto que malbaratei minhas energias, o que me impediu de fazer algo de grande? Se não tivesse perdido tempo nisso eu teria, na certa, descoberto a pólvora ou a América, ou qualquer outra coisa, não sei precisamente qual, mas que teria descoberto, lá isso teria!' O que é mais característico nesses indivíduos é que nunca chegam a saber direito que coisa lhes foi destinada descobrir e dentro de que são eles uns ases em descobertas. E todavia seus sofrimentos, suas ânsias pelo que deveriam ter descoberto, seriam bastantes para um Colombo ou um Galileu."


Trecho Predileto de O IDIOTA de Fiódor Mikháilovitch Dostoievski, por Sandra Abrano


segunda-feira, 16 de outubro de 2017

POTOSÍ 1600 de Ramón Rocha Monroy

Alfaguara, 2002, La Paz - Bolívia, 218 páginas.
Trecho Predileto de POTOSÍ 1600 de Ramón Rocha Monroy, por Sandra Abrano

Passei alguns dias na Bolívia, principalmente viajando pela Chiquitânia. Fui a essa região para conhecer as missões jesuíticas bolivianas, a maioria delas bem preservadas e com uma arquitetura ímpar. A viagem se estendeu à Santa Cruz, Cochabamba e Oruro.

San José de Chiquitos - Bolívia


Detalhes da missão jesuítica de San Javier - Bolívia.













Em país de língua espanhola ou portuguesa, costumo escolher um livro local para me acompanhar na viagem e, por assim dizer, apresentar o povo, o pensamento ou a história da região. 

Foi assim no Peru, em que tive a companhia de ABRIL ROJO de Santiago Roncagliolo (até hoje um dos meus livros favoritos) e de Vargas Llosa, em O FALADOR. No Chile, escolhi HALCONES DE LA NOCHE de Roberto Ampuero e, na Argentina, reli RESPIRAÇÃO ARTIFICIAL de Ricardo Piglia.

Pelas missões jesuíticas na Bolívia, quem me acompanhou foi EL PEABIRÚ CHIQUITANO, livro que relata o trecho boliviano do célebre caminho pré-colombiano que cobria a América Latina, passando, inclusive, por terras brasileiras, chegando a São Paulo, Paraná, Santa Catarina...


No restante da viagem escolhi POTOSÍ 1600, de RAMÓN ROCHA MONROY, escritor nascido em Cochabamba e por várias vezes premiado. Seu livro EL RUN RUN DE LA CAVALERA foi incluído na prestigiada lista das 15 novelas fundamentais da Bolívia, criada pelo Ministério da Cultura em parceria com intelectuais e instituições culturais.

Plural Livros editora e livraria, em Cochabamba, local em que comprei alguns livros de escritores bolivianos.




o enredo de Potosí 1600

Leonor vive há tanto tempo em Potosí, que mal comenta a respeito de seu país de origem, a Espanha. Nessas paragens de altitude e temperatura cruéis, Leonor enterrou seis filhos pequenos. Seu marido, Francisco Flores, é mais um tomado pelo flagelo de Potosi, a cobiça. A ele

"no ofendia la muerte temprana de sus hijos anteriores con tal de seguir recibiendo la dadiva mineral del Cerro Rico".




a prata que calça as ruas de Potosí

Leonor e sua sempre amiga Maruja, elaboram ricos pratos com os ingredientes da região, enquanto conversam interminavelmente a respeito de todos os assuntos e vidas locais.

Grávida mais uma vez, Leonor faz promessa a São Nicolau, protetor das parturientes, para que seu filho nasça forte e resista aos rigores da tão exigente Potosí. E assim nasce o primeiro criollo (filho de espanhóis) em Potosí, Nicolau Flores é seu nome, dado em homenagem ao santo que o protege.

Maruja e outras 38 esposas de azogueros seguem o mesmo caminho e, como Leonor, todas colocam Nicolau como primeiro nome de seus filhos. Os 40 Nicolases são a fina flor de Potosí, em eterna rusga com os herdeiros bascos, igualmente poderosos na estrutura da extração da prata de Cerro Rico. Mas sejam espanhóis ou bascos, todos enriquecem às custas dos povos originários que trabalham nas duríssimas condições das minas de Cerro Rico.

Os 40 Nicolases já são jovens adultos quando Ñatita (a morte) assim como Nossa Senhora da Candelária e outros santos passam a ser vistos em Potosí. A presença dos santos coincide com a chegada à cidade de uma trupe de comediantes andarilhos.

Espanhóis, bascos, nativos, negros, religiosos, prostitutas de diversas nacionalidades, todos atraídos pela cidade mais rica do mundo na época, ao ponto de suas ruas serem calçadas com lingotes de prata em dias de festa.

Quer lugar melhor para que os sete pecados capitais andem livres por seus caminhos sob o olhar complacente e vitorioso de Ñatita?

Se gostei de POTOSÍ 1600?

Ramón Rocha Monroy consegue, nesse romance histórico, apresentar o cotidiano, as disputas, a opulência e a vida libertina, com conhecimento e humor. Inspirado nas crônicas de Bartolomé Arzáns de Orsúa y Vela, relata o nascimento do primeiro criollo em terras de Potosí.

O livro foi uma ótima companhia de viagem. Desta vez não passei por essa historicamente rica cidade boliviana que conheci há alguns anos, em minha primeira viagem pela Bolívia, mas reconheci os temperos, o ritmo incessante e as exigências físicas que ela cobra de todos.


Trecho Predileto, página 63
Al Viejo lo envanecían las octavillas y décimas dedicadas al Cerro Rico, que agradecía puesto de pie y muy ceremonioso, para regocijo de la Ñatita. Gustaba muy en especial de las enumeraciones sobre la infinita carga de barras e piñas de plata que iban a lomo de carneros de la tierra rumbo al puerto de Arica, o de contrabando al puerto de Buenos Aires para beneficio de marinos ingleses que pagaban mejor; pero disfrutaba también del regocijo de indios e mestizos que soplaban flautas de caña de toda forma y tamaño,  y tambores de cuero crudo y curiosas versiones de la vilguela y el rabel y cuantos instrumentos de cuerda habían traído consigo los españoles. Cantaba un estribillo interminable con el que indios y mestizos remataban sus coplas picarescas, y con su voz ronca y aguardentosa repetía: Caymari vida, esto sí es vida".
Trecho Predileto de POTOSÍ 1600 de Ramón Rocha Monroy, por Sandra Abrano

sábado, 14 de outubro de 2017

A carta esférica de Arturo Perez-Reverte

Planeta DeAgostini, 2003, São Paulo, 530 páginas.

Trecho Predileto de A CARTA ESFÉRICA de Arturo Pérez-Reverte, por Sandra Abrano

Bem que tentei e segui até pra lá das duzentas páginas, empolgada pelo ritmo de aventura das primeiras cem. 

Não deu. As informações técnicas, trechos desinteressantes, sentimentos forçados, mistérios arrastados me fizeram naufragar. Não é por isso que faltou Trecho Predileto, aliás, marquei mais de um. Mas o conjunto...

Trecho Predileto, página 29
"Porque não há livros sobre faróis e perigos e sinais para navegar terra adentro. Não há roteiros específicos, cartas atualizadas, linhas de perigo em metros ou em braças, alinhamentos a esse ou aquele cabo, balizas encarnadas, verdes ou amarelas, nem regulamentos de navegação, nem horizontes limpos para calcular uma reta de altura. Em terra sempre se navega por estimativa, às cegas, e você só pode perceber os arrecifes quando os ouve rangendo a um cabo de sua proa e vê clarear a escuridão na mancha branca do mar que quebra nas pedras na superfície da água. Ou quando você escuta a pedra inesperada -- todos os marinheiros sabem que existe uma pedra com seu nome espreitando-os em algum lugar --, a rocha assassina, arranhar o casco com um chiado que faz estremecer as anteparas, nesse momento terrível em que qualquer homem no comando de um barco prefere estar morto."
Trecho Predileto de A CARTA ESFÉRICA de Arturo Pérez-Reverte, por Sandra Abrano

sábado, 30 de setembro de 2017

ADEUS, PRINCESA Clara Pinto Correia

Rocco, 2001, Rio de Janeiro, 228 páginas.

Trecho Predileto de ADEUS, PRINCESA de Clara Pinto Correia, por Sandra Abrano

O fato de trabalhar em um sebo amplifica a sensação de que nunca vou chegar ao menos no meio da minha lista de livros para leitura. A lista cresce em progressão geométrica e a minha capacidade de leitura, bem, essa nem em progressão aritmética. A seleção é ampla: clássicos, contemporâneos nacionais, policiais, históricos são a base do meu interesse, mas não só.

Há tempos ADEUS, MINHA PRINCESA pisca para mim a cada limpeza de títulos na estante. Autoria portuguesa, passou a frente de tantos outros interessantes escritores da mesma nacionalidade. Admito que o número de páginas razoável foi um dos critérios, afinal, sou uma pessoa prática.

"Nunca pensei que fosse tão bom estar contigo"

foi a frase-chave para atar Miló (alentejana de 18 anos) ao mecânico alemão de 25 anos, Helmut, em serviço na base aérea da NATO no Alentejo. No mais, Helmut desprezava Mitó sem piedade. Dela sempre se despedia com ironia, impregnada na frase "adeus, princesa".

Auf Wierdersehn, Prinzessim

Bom, Helmut não deixou saudades aos amigos e parentes de Mitó quando foi encontrado morto, com a cabeça atada em seu próprio casaco no escapamento do carro. Mitó confessou o crime, mas ninguém acreditou  nessa versão: franzina, frágil física e emocionalmente, não teria forças para cometer o assassinato.

O período de férias e a falta de notícias quentes foi o que levou o editor da revista Atualidade, de Lisboa, a enviar o estagiário Joaquim Peixoto e o fotógrafo Sebastião Curto ao Alentejo rural, em busca de notícias a respeito do mecânico alemão.

A timidez e a falta de jeito do estagiário Joaquim Peixoto se depara com os moradores típicos do interior de Portugal, seus conflitos e interesses políticos, econômicos e sociais. Recebem com cordialidade ao estagiário e seu experiente fotógrafo, na esperança de verem seus problemas estampados nos meios de comunicação lisboeta. A eles aflige a falta de perspectiva, iniciativa e as atitudes dos jovens da região, sendo Mitó uma de suas típicas representantes.

CLARA PINTO CORREIA usa o assassinato como mote para contar as dificuldades que estão estabelecidas nessa região, amplificando, assim, o interesse pelo livro.

Os editores optaram por manter a sonoridade original do texto português, o que pode causar algum desconforto no início da leitura, mas logo isso torna-se um problema ultrapassado, a não ser por algumas enigmáticas expressões ou ditos populares (poucos) em que o contexto se encarrega de esclarecer. Mas, para mim, uma delas ficou sem a devida "tradução".

Que raios quer dizer 
FAZES OITO COM PERNAS DE NOVE? 

Bom, a amiga Rô encontrou a resposta da própria autora: trata-se de uma expressão alentejana que estava em voga em Aljustrel nos anos 80, quando Clara escreveu o ADEUS, PRINCESA: "Não sei se ainda se usa; significa qualquer coisa como "fazer coisas do arco-da- velha" ou "fazer coisas inacreditáveis". Fica aqui, registrado.

Prazer na leitura e reflexão, é o que alcança nesse livro, a escritora Clara Pinto Correia. Não é pouco!

E aqui, o link com entrevista com a autora no programa LER MAIS, LER MELHOR.
https://youtu.be/FPzVDfOiU9k
https://www.youtube.com/watch?v=FPzVDfOiU9k
Trecho Predileto de ADEUS, PRINCESA de Clara Pinto Correia, por Sandra Abrano








sábado, 19 de agosto de 2017

CRÔNICA DA CASA ASSASSINADA de Lúcio Cardoso

Editora Record, 1979, Rio de Janeiro, 536 páginas.

Trecho Predileto de CRÔNICA DA CASA ASSASSINADA de Lúcio Cardoso, por Sandra Abrano


Na pilha de livros que quero ler, coloquei os escritores brasileiros como prioritários.


LÚCIO CARDOSO estava em minha lista há tempos. Bom, a fila andou e chegou a vez de CRÔNICA DA CASA ASSASSINADA.


Densidade é que não falta ao livro. 


E personagens carismáticos, alguns são sombrios outros estão submersos em mágoa. Técnica de escrita primorosa, registro de uma época e de uma classe social (a tal decadência de quem algum dia foi).

Sensação de sufocamento, afogamento, little death too, prazer e falta de ar, ai, quantas sensações doloridas em uma única leitura.

Diários, cartas, confissões, depoimentos, narrativas multiplicam as vozes que contam do amor, traição, mentiras, adultério, incesto e decadência, muita decadência.

Há limite para o amor e para a dor?


Trecho Predileto? Vários. Por ora, o trecho da p. 26:
Sem pressa, com a mesma timidez de quem desobedece ditames de uma lei oculta, inclinei-me e levantei a ponta do lençol. Foi a primeira vez que vi o rosto de um cadáver, e aquilo deu-me uma sensação estranha como se uma música longínqua, em acordes muito finos, vibrasse em meu espírito. Ah, seria impossível expressão humana modificar-se com maior rapidez: nela, de linhas tão suaves e perfeitas, tudo havia sido vincado com violência, desde os cílios alongados, um tanto excessivamente, até a testa branca, larga demais, e a curva acentuada das asas do nariz, positivando um aspecto inesperado de semita. E em torno deste rosto, a rigidez estabelecera uma aura intransponível. 

Bem se via que a morte não era uma brincadeira, 
que o ser estabelecido originalmente, 
e toscamente modelado em barro pelas mãos de Deus, 
ali irrompia de todos os disfarces, para se instalar onipotente em sua essência mais verídica. 

Bem se via também que tudo se achava definitivamente dito entre nós. Inúteis as palavras que haviam sobrado, os afagos que não haviam sido feitos, as flores com que ainda pudéssemos adorná-la. Libertada, repousava em sua pureza final. Ah, e inútil também tudo o que não fosse fúria e submissão. Sem resposta, como se nós, criaturas, nada mais merecêssemos senão o luta e a injustiça, tudo terminava ali. E o que existira não passara de um sonho, de uma magnífica e passageira ilusão dos meus sentidos. Nada conseguiria mais romper o duro peso que se acumulava sobre meu coração, e diante daquela ruína, já tocada pela corrupção, eu custava a reconhecer aquela que fora o objeto do meu amor, e nenhuma lágrima, nem mesmo de piedade, subia-me aos olhos.

Tão sem pressa quanto suspendera a ponta do lençol, inclinei-me e beijei o rosto daquela mulher -- como já o fizera tantas e tantas vezes --, mas sentindo que desta vez era inútil e que eu já não a conhecia mais.
Sandra Abrano sobre CRÔNICA DA CASA ASSASSINADA de Lúcio Cardoso.
 

 





Ainda A PRIMEIRA HISTÓRIA DO MUNDO de Alberto Mussa PARTE II


Trecho Predileto de A PRIMEIRA HISTÓRIA DO MUNDO de Alberto Mussa, por Sandra Abrano

No final do mês, 
novo encontro do pessoal do Sarau.

Desta vez será em uma rua no final da avenida Celso Garcia, casa de um dos integrantes desse simpático grupo que a cada mês, mês e meio, se encontra para discutir um tema, um tanto de textos que tenha a ver com as leituras ou com o que pensa (ou incomoda) o anfitrião da vez.

O grupo é "fechado", isto é, os encontros são sempre na residência de um dos integrantes (nunca em local público como bares, bibliotecas ou centros de cultura) e uma das partes boas é a conversa inicial entre comidas e bebidas que cada um leva como contribuição. Em determinado momento, depois de muita conversa, os textos começam a ser lidos e o ambiente fica concentrado, no ritmo da leitura e pensamentos.

E foi de um dos integrantes desse grupo que peguei emprestado A PRIMEIRA HISTÓRIA DO MUNDO de Alberto Mussa, do qual já falei aqui no Trecho Predileto. 






Durante a leitura de um livro não faço anotações organizadas, são indicações de páginas, informações que julgo fundamentais e alguns nomes de personagens quando é o caso. Acabando a leitura, retomo esse "mapa" e organizo o pensamento. Daí é passar para a tela as impressões pessoais a respeito do livro. Essa é a forma que encontrei para reter na memória as sensações da leitura, essa coisa diluída, etérea e que rapidamente vai embora tal como neblina em dia de vento: sem deixar rastros.


No próximo Sarau vou devolver A PRIMEIRA HISTÓRIA DO MUNDO ao seu legítimo proprietário e decidi rever algumas páginas em que achei o texto particularmente interessante (nesse livro foram muitas). Com o trecho a seguir, fiquei particularmente pensativa. Tomara que ele provoque outras pessoas. Estamos em uma boa época pra isso.                     
Trecho Predileto de A PRIMEIRA HISTÓRIA DO MUNDO de Alberto Mussa, por Sandra Abrano



Mais um Trecho Predileto, 
p. 174/176:

Referem cronistas do tempo (André Thevet entre eles) um rito fundamental que delimita a posição ontológica da onça no pensamento tupi.

Quando pressentem que uma onça ameaça a taba, ou está nas redondezas, representando perigo para capadores ou qualquer outra pessoa que entre na mata, os índios armam mundéus – porque necessitam capturar o animal vivo.

É na taba que o matam, com uma pancada de ibirapema, na cabeça. Racham a cabeça da onça exatamente como fazem com a dos inimigos. A onça (esqueci de dizer) também recebe pintura e ornamento idênticos ao das vítimas humanas. Sua carne, contudo, não é consumida.

E a razão é simples: do corpo da onça não emerge nenhum taguaíba, nenhum espectro assombrado. A onça já é um espírito: um espírito que assumiu, voluntariamente, circunstancialmente, forma visível e matéria pesada. A onça, canibal e matador por excelência, está imune à aniquilação total, tem identidade plena, é um ser completo – perfeito, no sentido etimológico do termo.

Como perfeitos são também os caraibas. Disse antes que esses grandes feiticeiros têm o poder de se transformar em onças. Não é isso: caraíbas são onças, propriamente ditas, que se apresentam com uma pele humana. Por isso são tão perigosos, tendo que viver fora da taba, isolados na mata – porque a mata é o território dos espíritos.

A terceira manifestação desse mesmo princípio é o fundamento da própria tupinidade, presente na vida de todos os homens. O maior mérito, a maior conquista de um guerreiro tupi era o nome obtido quando rachasse a cabeça de um inimigo. Só depois de conquistado um nome desses, a partir da morte, era permitido ao homem ter um filho e dar um nome a ele.

Os que leram a crônica colonial, o epistolário jesuíta, as narrativas francesas ou outras fontes da época talvez não acreditam nessa informação, porque nesses documentos grandes personagens históricas indígenas ficaram conhecidas apenas por um único nome: Cunhambeba, Pindobuçu, Aimbiré, Caoquira, Abatipoçanga, Tibiriçá, Araribóia.

Esses “nomes”, na verdade, não eram os verdadeiros. Podemos considerá-los, tecnicamente, como meros apelidos. Nomes, num sentido estrito, eram anunciados apenas uma vez, e mantidos depois secretamente. Constituía ofensa grave, ou falta de decoro, nomear uma pessoa por um de seus nomes próprios.

Não conhecemos, portanto, nenhum exemplo deles. Mas parece que tais nomes eram grandes amuletos, eram as armas principais com que se enfrentavam os perigos da estrada dos mortos.

Não sei se mencionei que, para cada nome conquistado dessa forma, o matador tupi fazia uma incisão no corpo, com dente de cutia, e aplicava na ferida um pó de urucum – do que resultava uma espessa cicatriz.

Mais que os nomes, na verdade, o objetivo do matador era ter no corpo tantas cicatrizes que lhe permitiam fundar a própria taba; ou seja: adquirir a posição de tuxaua.

São eles, os tuxauas, os únicos membros da taba que podem ser sepultados dentro da própria oca – porque seu cadáver não libera nenhuma taguaíba, nenhum espectro. Os tuxauas também são, logicamente, onças. E as cicatrizes que acumulam não passam de transfigurações do que realmente está ali; são aquelas manchas negras da pelagem – que indicam nele a natureza felina.

É assim que se deve compreender a frase célebre do tuxaua Cunhambeba, registrada por Hans Staden: jaguara ixé – eu sou uma onça.

Não sei se o leitor sente como eu a grandeza dessa sabedoria. Ao terem a onça como meta, como objetivo ontológico, os antigos tupis afirmam que a condição humana não é hierarquicamente superior, no ordenamento natural; que não são os homens a realização suprema do criador do universo; que não somos, que estamos longe de ser melhores que qualquer animal.




sábado, 5 de agosto de 2017

DORAMUNDO Geraldo Ferraz

Melhoramentos, São Paulo, 1975 (primeira edição em 1967), 203 páginas.

Trecho Predileto de DORAMUNDO de Geraldo Ferraz, por Sandra Abrano

Amei ter assistido Doramundo de João Batista de Andrade.


Imagem relacionada



Eu, segundo ano de ciências sociais em 1978, recém-saída da casa dos pais tinha disposição infinita para ir ao cinema e preencher as noites solitárias e fins de semana vazios. Pelo menos é essa a lembrança que tenho, também preenchida por festas, beberagens diárias, intensa discussão política, algumas viagens reais e imaginárias, além, é claro, do trabalho burocrático das 8 às 18 que, afinal, era meu sustento.

Imagem relacionada

Enfim, essa era uma época em que eu estava descobrindo que a minha independência não era tão independente e a liberdade nem um pouco irrestrita. E foi nesse espírito que assisti ao filme de João Batista de Andrade, Doramundo. A cena em que um boi era morto a marretadas ainda martela na memória, assim como os assassinatos dos jovens trabalhadores na estrada de ferro, ambientada em Paranapiacaba misteriosa em meio à cerração permanente de suas tardes, noites e madrugadas, bucólica na imagem de suas casinhas de madeira, a estação de ferro com cara e jeito de inglesa e ladeiras forradas de paralelepípedo escorregadio pela constante umidade.

Há tempos queria ler o livro que deu origem ao filme.


Os assassinatos pareciam ocorrer sem razão aparente. 


O ponto comum entre as vítimas é que eram homens solteiros e trabalhadores na ferrovia, sempre mortos com um violento baque de uma barra de ferro em suas cabeças. A investigação policial não tardou a descobrir o motivo que já era amplamente conhecido da pequena população local: crime passional, ciúmes, traição. Os homens solteiros preenchiam suas horas vagas e necessidades com as mulheres casadas moradoras da pequena vila de trabalhadores da ferrovia.

Geraldo Ferraz, autor de Doramundo, não faz um relato linear dos acontecimentos. As vozes se alternam, os narradores se sucedem, um acontecimento ou uma conversa tida antes se encaixa com algo que vai ocorrer mais adiante. 


E é Adolfo Casais em seu prefácio ao livro quem esclarece que "'a ordem' dos acontecimentos só interessa secundariamente ao desenvolvimento do livro; eles importam mais como acumulação de carga emotiva do que como fatos de que a história dependa. Esta é, assim, um todo, não uma série de cenas, mas uma situação da qual importa ao autor fazer-nos sentir o impacto, e não o 'como' de cada sucesso. Pelo contrário, os acontecimentos só existem em função da relação de forças, do choque de impulsos, são como que meras ilustrações."




E é novamente Adolfo Casais Monteiro quem nos dá a chave do romance:

"Doramundo é um romance de forças primitivas, em que os personagens reais são de fato o sexo, a noite, o medo, a treva, um ciúme sem amor, o que, só por si, envolve todo o livro num clima de fatalidade cega, bem de acordo com as paixões primitivas em jogo."


É como se a névoa que encobre a cidade fosse incorporada pelo escritor, transformando em sinistro o povoado, não nos deixando identificar claramente as vítimas e muito menos o algoz. Será apenas um o algoz ou serão tantos quantos as vítimas?

Não há soluções fáceis no livro de Geraldo Ferraz e nem na vida, não é mesmo?


Trecho Predileto, página 22:
"Às vezes Cordilheira despertava dentro inteirinha das nuvens. Demorava desembaçar-se dos véus. Havia porém dias claros, logo cheios de chuva, ou mesmo de sol e de chuva. Outros, eram meias jornadas límpidas de azul, nunca entretanto 24 horas estáveis. Embora a proximidade da Grande Usina, Cordilheira tinha só uma iluminação pública, a das estrelas, Isto facilitou muitos crimes. Mesmo dentro do nevoeiro quando as nuvens roçavam pelo chão negro de Cordilheira. Todos molhados pisando nas pedras duras, ásperas. Era só o homem que as pisava, nenhum veículo, roda ou casco para quebrar as arestas. E as pedras que os homens pisavam lhes transmitiam mais dureza na solidão de Cordilheira. Para apoio da rua em diagonal olhai como lembra cidadela este retalho de muralha plantado na esquina da ladeira. Musgos verdolengos, limos gordos, liquens, samambaias despontando das gretadas componentes duras.

-- É, que casas - respondeu a senhora como achando o jeito maneiroso de saltar sobre o lameiro e a poça, os santos altos, arrepanhando graciosamente o vestido para não apanhar respingos:
-- Mas sabe, vivem numa tranquilidade, quem me dera a tranquilidade e paz das consciências deles.
-- Ah, sim, é verdade -- retrucou o parceiro.

Não reparou na ambição. Tranquilidade no meio de tanto ferro, fumaça, nuvem, carvão, pedra e muralha!
Tranquilidade minha senhora era um pedaço de ferro no escuro lascando a testa da consciência da paz -- em paz hem -- numa dessas noites sem estrelas de Cordilheira. Era o ódio que vem desde o princípio do mundo: a nossa inteira solidariedade nos crimes "Aquele, uns diziam, já teve o que merecia". Não seria uma reflexão do criminoso mesmo, recuperando o instante?"

Trecho Predileto de DORAMUNDO de Geraldo Ferraz, por Sandra Abrano



quinta-feira, 6 de julho de 2017

A PRIMEIRA HISTÓRIA DO MUNDO de Alberto Mussa

Record, 2014, Rio de Janeiro, 240 páginas, livro emprestado do parceiro de sarau, Chico Marafa.
Trecho Predileto de A PRIMEIRA HISTORIA DO MUNDO de Alberto Mussa, por Sandra Abrano

Há pouco fiz uma oficina de escrita criativa, mas não vou me alongar a esse respeito por um motivo simples: gostei da proposta inicial, detestei o desenvolvimento e condução, mas dou mão à palmatória ao afirmar que aprendi algumas coisas. A vida é assim: o lado ruim, não é totalmente ruim, não é verdade? Pois nessa oficina de escrita entendi o que Chuck Palahniuk (mais conhecido por ser autor de O CLUBE DA LUTA) insistia em afirmar no texto pregado no abajur da minha mesa de trabalho, local em que invariavelmente meu olhar estaciona várias vezes ao dia: mostre, não conte. 


Não afirme que um personagem está ansioso ou nervoso, mostre isso.


Falar é fácil. Mostrar é bem mais difícil.

Eu me propus a fazer alguns exercícios de escrita até que a noção entre contar e mostrar se solidificasse em aprendizagem automatizada. Afinal, essa é uma das características da literatura contemporânea, a literatura do meu tempo. Eu quero estar antenada com o que acontece e não é a idade cronológica que me afastará dessa turma.

E aí, exatamente nesse momento, A PRIMEIRA HISTÓRIA DO MUNDO chegou às minhas mãos em livro emprestado do Chico Marafa, um dos leitores admiráveis que compõe o sarau do qual eu prazeirosamente participo.

Alberto Mussa CONTA o tempo todo.
Como? Conta e não mostra?
Exatamente.

Resultado de imagem para a primeira história do mundoNesse romance histórico entramos em uma região conhecida como Carioca e também nas primeiras ruas do Rio de Janeiro de 1567. Um romance histórico que também é uma narrativa policial ao investigar o assassinato (verídico) do serralheiro Francisco da Costa, morto com 7 (quase 8) flechas, em um crime em que são suspeitos nada menos do que 15% da população da cidade.

Esse é um livro de ficção em permanente diálogo com a não ficção, ou seria o contrário?

Em boa parte da minha leitura tive a sensação de uma narrativa de não ficção flertando com recursos da ficção. Em um caso ou outro, é uma obra original e necessária, afinal, quer melhor modo de compor o Brasil da época em que mal havia se inaugurado o Brasil, tão em seus primórdios e tão indígena no cotidiano, crenças e mitos fundadores, para, quem sabe, catarmos os cacos do que esse país é hoje, consequência de nossos atos e de nossos antepassados, alguns dos quais são “contados” na primeira história do mundo com a participação das populações nativas e estrangeiras, essa última com tanta necessidade de poder e enriquecimento imediato em que, como sempre, os fins justificam todos os meios. Como antes, nesses primórdios, como agora na atualidade.

Mas não se pense que a narrativa é um tormento político histórico. Nada disso, antes de tudo, A PRIMEIRA HISTÓRIA DO MUNDO tem a ver com o amor, o ciúme e, quem sabe, o assassinato de Francisco da Costa tenha sido um crime... passional.

Trecho Predileto (há outros, todos longos, então, restrinjo a esse), p. 64/66 :
“Quando pisaram na praia, contudo, viram os nativos. Andavam mesmo todos nus; e, à exceção da parte de trás da cabeça, não tinham pelos no corpo, nem nos supercílios, nem na região pubiana. Usavam brincos de osso, braceletes de penas, colares de dentes e miçangas. Os homens, além desses adornos, levavam umas pedras verdes enfiadas nos lábios de baixo e às vezes pelas próprias bochechas.Lourenço Cão, aliás, talvez tenha sido o único dentre os estrangeiros a reparar melhor nos homens; tinham eles grandes cicatrizes no peito, nos braços, nas coxas. Não eram, todavia, ferimentos de guerra, pois tinham tamanho, espessura e recorte semelhantes. E havia um padrão naquilo: quanto mais velho era o indivíduo, mais cicatrizes exibia. Finalmente, Lourenço Cão identificou um princípio na disposição delas, como se fossem um desenho, como se constituíssem uma escrita. Essa afirmação, absurda, foi testemunhada pelo calafate.O capitão, animado com a índole aparentemente amistosa dos selvagens, apesar de estarem todos armados, tentou estabelecer um diálogo gestual, mostrando moedas de ouro e prata, tentando saber se existiam ali metais como aqueles.Toda essa cena, contudo, parece não ter interessado a certa personagem: o grumete, que fora ao porão trazer o prisioneiro. Admirava, esse rapaz, visivelmente excitado, a nudez das mulheres. Chegara a expressar um desejo temerário, que o gajeiro reprimira ainda no convés. Estavam a uma certa distância dos índios, tentando entabular aquele impossível diálogo.Foi quando uma das moças veio, sorridente, na direção dos estrangeiros. E parou ali, nua, completamente nua, diante dele, grumete (que certamente a atraíra pela insistência dos olhares), para experimentar, com os dedos, agora rindo muito, a textura da roupa e dos cabelos – que eram louros.Ocorreu, então, no rapaz, uma mudança. Nunca tivera, o grumete, uma mulher (é a afirmação do gajeiro). Nunca tinha visto uma mulher sem roupa. Conhecia apenas (a presunção é minha) a prática vulgar entre camaradas marinheiros. Tinha, logo, uma curiosidade muito natural.Assim, aquela nudez de moça, oferecida tão de perto, o alienou do mundo. E ele se atirou, ensandecido, sobre ela, tentando se desvencilhar das calças, enquanto abocanhava, com a boca inteira, um daqueles rijíssimos peitinhos.Não é difícil imaginar a reação dos nativos. Por sorte, não dispararam as flechas, talvez com medo de errarem o alvo e atingirem a indiazinha. Mas vieram, todos, contra os estrangeiros. Antes, porém, que os alcançassem, Lourenço Cão, num rompante, cravou a faca no pescoço do rapaz. Faca que dele mesmo recebera (como julgo ter deduzido), ainda no porão, para não estar completamente desarmado.Chegavam, enfim, ao verdadeiro mundo novo.”
Trecho Predileto de A PRIMEIRA HISTORIA DO MUNDO de Alberto Mussa, por Sandra Abrano